O que é filosofia?
Há diversas formas de responder à questão: o que é filosofia? e, ainda que se possa considerar a existência dessas inúmeras possibilidades, dois caminhos são os que contêm um sentido para o qual voltamos os olhos: pode-se escolher algum pensador da tradição filosófica e aliada a uma boa compreensão realizar uma construção de texto, fica-se, assim, dentro de uma linha acadêmica e mais específica; pode-se, por outro lado, aliar o que se leu nos pensadores com aquilo que a filosofia significa para cada um que a pensa e com ela se envolve, temos aqui, a subjetividade do ser que se pergunta o que é filosofia? e, logo a seguir se responde, pressupondo ter encontrado para si mesmo a melhor resposta e apropriando-se dela julga a definição elaborada como possuidora de um sentido especial ao próprio conhecimento filosófico e às abstrações que daí se poderá derivar mais tarde. Decidi-me, ao responder a questão, pelo segundo caminho, subjetivo sem, no entanto, fugir por completo da tradição filosófica. Não posso deixar de ver na filosofia uma aproximação com a literatura, isto soa contraditório ou, talvez, fosse mais apropriado dizer, fora de lugar, porém ao dar tal justificação — fora de lugar — preciso sensatamente expor o seguinte: a filosofia possui lugares nos quais não tem o direito de ser envolvida, isto, por sua vez, levaria-me a fazer outra pressuposição: se a filosofia não pode estar em todos os lugares_como, por exemplo, no mundo particular daquele que a pensa_ significaria que ela não pode ter a pretensão de estender para o mundo inteiro suas teorias e especulações, se excluo coisas particulares não posso querer que tais coisas tenham pretensão de serem universais, e se excluo a própria subjetividade que filosofa_ o próprio ser que pensa uma questão determinada_ então não posso pretender que haja universalidade em tal pensar. Soma-se a isto o fato de que se a filosofia tem por finalidade qualquer dimensão do ser humano como pode exluir o ser humano particular e seus pontos de vista? É como pensar algo e agir contrariamente a este algo, é, no mínimo, frustrante. Mas, quem sabe, fosse mais adequado dizer que a filosofia tendo perdido tantos espaços não tenha mesmo o direito de circular em qualquer lugar e se assim for, pode-se julgar que muitas coisas estão fora de lugar.
Mas, voltemos à questão proposta e à idéia de que existe uma relação da filosofia com a literatura e que há aí um lugar possível para ambas: filosofia não é a busca da verdade? literatura não é ficção e, sendo assim, não inventa, distorce e falseia a verdade que a filosofia tem pretensão de encontrar como absoluta?_ainda que afirme o contrário? Como se ambas pudessem mostrar a beleza do mundo_seja particular ou universal, filosófico ou literário_ mas de formas contrapostas se pensadas em relação à verdade. Nesse sentido, uma ‘verdade oculta’, apesar de transitória, como um desvelar de pensamentos que transcendam além do deixar-se viver, importaria? Penso que expressar os próprios pensamentos — por mais estranhos que estes possam nos parecer — é um algo a ser desvelado constantemente, afinal não será a filosofia a continuidade de idéias que sempre moverá o mundo? Ainda que não se perceba? Ainda que seja uma espécie de pano de fundo não percebido em nosso ir-e-vir, mas sem o qual não haveria tal movimento na existência?
É possível ver uma outra aproximação da filosofia com a admiração, admiração de descobrir que existe uma linguagem metafísica, em meio a tanto pragmatismo espalhado pela vida dos homens, capaz de substituir a insatisfação existencial, algo como um estar-aí autêntico. Diz-se linguagem metafísica como se disséssemos: o dizer reflexivo está sempre além do físico, do empírico, vem sempre depois — ou vem sempre dentro da própria filosofia — para uma possível compreensão de si e do mundo. Sentir esse assombro diante da existência que fuja à realidade plausível e banal que em vez de acrescentar, acaba por nos tirar até mesmo a capacidade de imaginação e criação_ e estas últimas são um outro tipo de filosofar, aproxima o ser humano não só da filosofia como de si próprio.
Essa linguagem, que não a imediata do instante empírico em que se vive alguma situação, parece estar sempre além desse instante, remete a outras perguntas: poderia haver algo que não possuísse um traço a ser descoberto? Ou poderia haver um outro algo que fosse somente isso: pura descoberta? É certo que ao longo da história da Filosofia vários conceitos surgiram e foram se transformando, entrelinhas a serem desvendadas através de uma busca que não tem fim, que não pode ter fim enquanto aí estivermos sendo para o mundo e é exatamente esta busca que virá a substituir o tédio do pragmático, o tédio do simples viver ou de um filosofar árido e sem um real sentido_ muito embora o conceitual não seja sempre assim, árido.
Se eu me guio pelo que disse Platão e Aristóteles: o primeiro passo para se fazer filosofia é admiração diante do mundo, penso que me deixo seduzir constantemente pela sabedoria que busco, onde o primeiro passo é a admiração, posso dizer, de certa forma, sedução diante do universo_ e se pressuponho o princípio de que os significados em grego ou latim sejam os verdadeiros e aqueles que devem ser vistos como outro fundamento para o filosofar e logo a seguir considero que sedução em latim significa desviar-se do caminho correto, volto a aproximar a filosofia da literatura, dizendo que é a forma mais refinada de sermos escritores sobre as obras de outros escritores _ e se há o desviar-se do caminho correto, isto é, do significado que penso ser o original que estava na mente do autor, logo falseio seus conceitos e teorias, logo invento, logo estou indo em outra direção, ainda que minimamente_ ainda que não queira.
Em um outro ponto poderia me questionar: como se poderia julgar um autor sem que se fosse esse autor? O que podemos ter é sempre uma possível aproximação do que ele disse através dos significados de conceitos a formarem seu mundo filosófico privado direcionado ao universo_ sempre uma aproximação, nunca sua totalidade, já que em momento algum se pode ter noção ao menos de como ele sentiu, percebeu, olhou para o mundo, este que vemos e também não; o sol deve ser o mesmo de Osíris e Ísis, mais de 5 mil anos antes dos pluralistas, mas contudo esse mundo do filósofo a ser conhecido me é distante no tempo, na sua cultura, sua época, acontecimentos que faziam parte do seu dia-a-dia, os livros que leu ou não, suas idiossincrasias, sua relação com o estar-aí no mundo, uma infinidade de coisas a serem vividas somente através de livros que me chegam às mãos, experimentar esse mundo vivido seria impossível. Então alguém poderia argumentar: você deve conhecer a teoria, o sistema filosófico e seus conceitos, não importa o homem-Platão, o homem-Pitágoras ou qualquer outro. Diria que, em geral, preciso concordar com o argumento, o que pode nos importar a forma como viveram ou o que fizeram de suas vidas quando não estavam a filosofar?, porém, quero chegar ao seguinte raciocínio, esses universos não encontrados a não ser em palavras carregam seu próprio princípio de filosofar: as palavras, remetem sempre a um lugar de abstrações, sempre um voltar-se para trás do que foi dito sem nunca poder vivê-lo empiricamente, eu me encontro em outro lugar, eu me volto para o passado, e faço um esforço enorme para estar onde creio que o filósofo esteve, pois trazê-lo para o meu mundo não me é inteiramente possível, porque eu o estaria arrancando do lugar a que pertenceu e que lhe foi destinado na tradição filosófica, eu tiraria sua pretensão de universalidade dentro da filosofia, eu o tornaria um particular. Não há ir até o filósofo plenamente, nem trazê-lo, pois neste último eu daria a sua filosofia o meu ponto de vista diante do mundo em que estou agora. Há um jogo de ir e trazer que não pode ser feito de forma integral, digamos assim, então vou o suficiente para que eu creia que não o tirei do lugar a que pertence, por momentos, eu simulo que lá estive e sou eu que me movo em sua direção como se ele ainda lá estivesse e posso dizer que o compreendi, quando seria mais lúcido dizer, que lá não estive, sequer sei o tom de sua voz, lá é o fora de lugar para mim que existo aqui, agora, procurando ver nas entrelinhas do que já foi escrito as perguntas que a humanidade sempre se fez e continuará fazendo: ‘quem somos, para onde vamos, quanto tempo tenho?’ derivando em direção a muitas outras coisas com as quais se pode desvelar o pensamento_ mas jamais da forma como foi construído, porque sou sempre eu tentando conhecer o outro.
E, se para certas perguntas jamais teremos respostas, é nesse ir-desviando-se que encontramos as mesmas coisas com um novo olhar_ a tal da admiração. Saber que o mundo pode existir dessa maneira importa, faz com que eu continue a escrever e me fornece a certeza de que ainda é possível entusiasmar-se com algo, de que ainda é possível aproximar-se cada vez mais da linguagem e perceber que o espaço de transição entre o pensar e o ato de transformar estes pensamentos em palavras, em linguagem, talvez seja enfim a filosofia agindo dentro de nós como se fosse a metafísica_além do físico há algo que se move, que nos joga numa transição de sensações e pensamentos acabadas em palavras, coisa realmente impagável, o que está lá em palavras não é exatamente o sentido e o pensado, o pensado e sentido não é exatamente o transposto para as palavras, talvez seja tudo mais simples: as entrelinhas de nosso próprio ser, que aparece nesse movimento, seria o que se poderia chamar de metafísica enquanto filosofia que não está fora de lugar, mas buscando seu lugar e utilizando a linguagem e o pensar para isto.
Em resumo, filosofia é admiração, por sua vez é sedução_ desviar-se do caminho correto e, portanto, da verdade_e assim é literatura, é também linguagem a traduzir sensação e pensamento_ é a permissão que damos ao universo de se mover dentro do que somos até então, não proibindo a nós mesmos de saber que embora a filosofia não seja nada disso, ainda assim, sendo sentida como se fosse isso, pode ser o que ela não é em termos do que deveria ser. Pode ser, ainda, Metafísica se eu pensar que ao me mover abstratamente para um lugar em que não estou, nunca estive em sua essência e existência, estou além de mim, além do universo presente, além do espaço e do tempo que ocupo. Filosofia é eu que penso, sinto e escrevo, eu que me permito transportar para um estar fora de lugar momentaneamente.
E, se filosofia é estar fora de lugar, na filosofia que não sou, que busco retornando sempre ao que foi sentido, pensado, escrito: aquele lugar para o qual acabei de olhar e do qual agora retorno (o mundo filosófico de Kant, por exemplo) não é o meu próprio, mas é como se fosse, poderá continuar sendo como se fosse, se eu compreender seus conceitos e o sentido de sua filosofia — ainda que seja visível e óbvio que já possua meu próprio lugar e minha existência, única e finita, sei que estarei além de mim mesma, mas um além que é sempre antes de qualquer lugar que eu possa estar no agora. E todo esse ir e vir abstrato polarizando espaços e tempos entre o que foi, o que é e o que pode vir a ser e que está em meu pensar acaba por voltar-se não só filosofica ou literariamente, porque estará sempre além, ainda que seja sempre antes. C’est ça!
2001