sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Os paradoxos filosóficos de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas

by sandra adriana fasolo

"Eu estou contando assim, porque é meu jeito de contar. [...] Isso é como jogo de baralho. Riobaldo por Rosa na vereda 114" “Mire: veja, o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas estão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou (vereda 39)”

Pressuposto[1]-[2]_ A questão de Riobaldo sobre a existência do diabo inicia como sendo da esfera da metafísica e através da resposta final, encontrada pelo personagem-narrador, a dúvida riobaldiana acaba sendo transposta para a esfera ética da natureza humana. Pontos convergentes_ oscilações de tempos narrativos e do próprio tempo interno de Riobaldo, oscilações filosóficas nas divagações de Riobaldo, a dialética do perguntar e responder contínuo «funcionando» apenas como base para o modo de ser riobaldiano, uma dialética da percepção de vida subjacente às inclinações empiristas do nosso filósofo do sertão. A obra maior de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas[3]-[4], narra a vida do jagunço-filósofo-poeta Riobaldo em um monólogo dirigido a um interlocutor oculto, pois não há em nenhuma passagem da narrativa uma resposta do personagem-interlocutor ao personagem-narrador «Riobaldo», tornando o diálogo entre ambos somente inferido. Dentro do monólogo a vida de Riobaldo é narrada por ele mesmo em uma alternância do que poderíamos chamar de «tempo riobaldiano», desse modo, considera-se, há o tempo presente onde ele conversa com o interlocutor e há o tempo «como se fosse» presente, no entanto, representado em lembranças e re-lembranças. Nesse sentido, o pensamento e discurso riobaldiano seriam a mesma coisa, salvo que é ao diálogo interior e silencioso da alma consigo mesma[5] que leva Riobaldo à exteriorização das lembranças ao interlocutor misterioso tomando o passado em uma dupla representação: a representação das lembranças e a representação de um tempo que mesmo estando no movimento de retorno do passado para o presente ultrapassa o dizer-narrativo para recriar a realidade do agora em uma dupla ficção: a da obra em si mesma e a ficção do passado relembrado pelo Poeta-Filósofo. Mas, Riobaldo o sabe, o agora narrado por ele é passado e ainda assim se permite revivê-lo em recordações como se as imagens ao retornarem pudessem trazer junto cada instante do sertão, ou seja, da própria vida. E, se a corrente que emana da alma e sai pelos lábios em emissão vocal[6] torna-se o discurso para além do pensamento de Riobaldo, então o discurso manifestado em lembranças trazidas de volta «re-apresentadas novamente pela voz riobaldiana», conduz e impregna não só a ele, Riobaldo, como também ao leitor, de um tempo como se fosse «o agora». É o pensamento em movimentos de lembranças desdobrando-se duplamente na ficção: Riobaldo faz ficção de sua própria vida. A sutileza deste «tempo riobaldiano» estabelece, portanto, uma duplicidade de tempo presente extremamente sutil, há o tempo presente do monólogo, o «diálogo entre Riobaldo e o interlocutor misterioso» e há o tempo presente do que já ocorreu contado «como se fosse» presente, contudo passado. Grande Sertão: Veredas poderia ser definido como uma longa narrativa de recordações, ora se move pelo diálogo interior e silencioso e ora se move pelo diálogo exteriorizado fornecendo ao leitor uma representação de imagens que se pretende ser ação de uma vida, contudo, já decorrida.[7] Se considerarmos isso diante do ponto de vista de que o narrado não é mais presente em termos do empírico, não está mais acontecendo, estando imerso num plano essencialmente de lembranças trazidas de volta pela memória do personagem-narrador, é possível estabelecer uma aproximação com a filosofia de Bergson. Se, por outro caminho, partirmos da narrativa, que está na verdade em segundo plano no que se refere ao tempo riobaldiano presente, então é possível estabelecer uma aproximação com o empirismo enquanto conceito básico filosófico. Pressupomos então que as oscilações implícitas diante de dois tempos presentes do «tempo riobaldiano» apontam para distintas aproximações filosóficas com o pensamento e modo de ser de Riobaldo: 1_ A predominância na narrativa do tempo passado da vida de Riobaldo, contudo sentido como sendo «presente», isto é, a narrativa (lembranças) dentro da narrativa recordada (o instante em que Riobaldo está a recordar), aproxima o modo de ser de Riobaldo com o empirismo. 2_ A predominância do tempo presente do monólogo, isto é, o diálogo de Riobaldo com o interlocutor oculto, pressupõe um Riobaldo abstrativo, essencialmente recordativo e imerso em imagens igualmente abstratas, desde que são representadas e trazidas de volta ao verdadeiro tempo presente da obra. [8] 3_ O movimento do pensamento de Riobaldo é impulsionado pela dialética, porém não é somente através da dialética que ele alcança respostas para tantas e tantas questões humanas, Riobaldo possui a dialética da percepção e isto fez toda a diferença no mundo riobaldiano: uma dialética da percepção[9], no entanto, não será na pura abstração que ele encontrará as respostas sobre a existência do homem e sim pelo que a vida lhe ensinou. O movimento do raciocínio de Riobaldo é explicado por ele logo no início como um «aviso» ao seu interlocutor-leitor: «eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo» «o Senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo» « para pensar longe, sou cão mestre — o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém» (GS:V: p.31)[10] Do ponto de vista do monólogo, o que Riobaldo faz em termos de movimento do seu próprio pensar contém uma enorme predominância de atos recordativos; do ponto de vista do «estar vivendo» ele manifesta inclinações para um modo de ser empirista.Mas tal inclinação é já passado e, contudo, é a parte mais profunda e extensa da obra. Isso acaba por nos conduzir a um paradoxo de seu modo de pensar a própria existência se consideramos a existência destes dois ângulos possíveis de interpretação ao «entrarmos» no tempo riobaldiano. O paradoxo parte das sensações que a personagem acaba por nos provocar, desde que ambas soam autênticas, isto é, ambas as predominâncias parecem autênticas em termos do modo de ser riobaldiano. Mas, afinal, como é o modo de ser predominante do nosso filósofo do sertão? É possível pressupor que a parte empírica torna-se fundamental para o desvelamento final da grande questão metafísica que abre o romance: «o diabo existe ou não existe?» onde então estaria um indício de seu modo de ser empírico que pensamos ser determinante?, pois, ao lado disso, o enredo da vida no sertão em meio aos jagunços, guerras, mortes, as divagações de Riobaldo, suas especulações metafísicas, morais, éticas, uma continuidade de questões filosóficas sobre a natureza e a alma humana estão presentes durante todo o tempo da narrativa e em grande parte associadas à pergunta sobre a existência do diabo. No que se refere às oscilações do «tempo riobaldiano-presente» através, como já foi dito anteriormente, do presente «real» e do presente «como se fosse real» mostra, ainda assim, uma unidade pela recorrência das questões que Riobaldo se coloca a todo instante, talvez este seja o tempo a ser analisado, o tempo de uma «travessia» pensando incessantemente sobre a natureza humana em aspectos múltiplos, do amor ao ódio, do perdão à culpa, do ressentimento à compreensão, da solidão à presença, do sertão que é do tamanho do mundo ao viver que é muito perigoso. Universalizando, o viver seria a própria travessia de cada ser humano em seu mundo circunstancial real e imaginado, pensado, possível_ e, claro, lembrado e relembrado. Mas, a partir de que movimento de raciocínio predominante Riobaldo conduz suas reflexões a respeito da natureza humana?[11] Embora existam oscilações de raciocínios filosóficos, o que implica no modo de ser de Riobaldo, ele não parece menos autêntico em momento algum por viver mais próximo do empirismo ou não, há uma verdade existencial em suas reflexões ainda que elas se oponham entre si, há uma busca por respostas da natureza humana incessante e talvez seja isto que em vez de apontar para um raciocínio em constante contradição, aponte justamente para aquilo que a filosofia nega em seus sistemas: o ser humano é uma multiplicidade em si mesmo, sensações, percepções, perguntas, respostas, pensamentos, lembranças, que por sua vez implicam em sentimentos contraditórios, o amor e o ódio, a dúvida e a certeza, a angústia e a paz, o medo e a coragem, a força e a fragilidade, longe de ser um dualismo a natureza humana constitui-se de paradoxos quando julga a si em relação ao outro e em diferentes circunstâncias. Desse ponto surge a presente questão sobre Grande Sertão: Veredas, quanto à aproximação com o empírico, pois é da predominância deste modo de ser que Riobaldo encontrará a resposta final sobre a existência do diabo, «o diabo existe, ou não existe?» A questão sobre a existência do diabo, «existe ou não existe?» parte de especulações metafísicas para no final da obra voltar-se para a ética do ser humano, ou seja, a pergunta realizada nas primeiras páginas da obra que parece ser de ordem transcendente termina por ser de ordem ética[12]. Para tanto consideramos o início e o final das palavras de Riobaldo, ambas no tempo presente sendo dirigidas ao «senhor doutor», o interlocutor que o escuta,

1_ Início da narrativa: «Nonada [...] Do demo? Não gloso. [...] E o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças» (p. 24-25) 2_ Término da narrativa, últimas linhas da obra: «minha idéia confirmou: que o diabo não há! É o que eu digo, se for [...] existe o homem humano. Travessia.» Se partirmos da resposta final encontrada por Riobaldo é possível pressupor: A existência do diabo é confirmada pela idéia mesma de Riobaldo o que significa dizer que seu raciocínio, após tudo o que viveu no sertão, acaba por lhe fornecer a resposta final para a existência do diabo e do mal. É a vida no seu devir que conduz o pensamento riobaldiano a encontrar a resposta final? O vivido confirma a idéia inicial? Seu pensamento embora seja dialético no perguntar-responder contínuo, como uma matriz de especulações, por assim dizer, seria conduzido em grande parte pela vida empírica, suas respostas estariam sendo encontradas pela via do vivido, observado, sentido, visto no sertão, na travessia de muitas outras vidas. Nesse sentido, há várias passagens em que se pode inferir e até mesmo confirmar o empírico que subjaz ao movimento dialético do raciocínio de Riobaldo e que ao longo do texto terá como conseqüência a saída de uma especulação metafísica para a ordem ética do ser humano. Aqui lembramos de uma célebre afirmação de Riobaldo o real não está nem na saída nem na chegada ele se dispõe para a gente é no meio da travessia, nosso pressuposto encontra passagem nesta bela frase que Guimarães Rosa coloca nos lábios de Riobaldo, como tentaremos mostrar a seguir. Passagens onde Riobaldo é nitidamente «empírico»:

«[...] uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias» (p. 31) «Os lugares sempre estão aí em si, para confirmar» (p. 43) «Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? [...] mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado [...] a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante» (p. 154) «E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!» (p. 116) «[...]sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...» (p. 41) «Aquilo fosse sonho mero, então só sonho; ou, não fosse então eu carecia de uma realidade no real, sem divago!» (p. 257) «Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima — me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada...Serviu algum?» (p. 276) «O que sinto, e esforço em dizer ao senhor, repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que me refiro tudo nestas fantasias. Mas eu estava dormindo era reconfirmar minha sorte. Hoje, sei» (p. 304) «Vida é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia falsa. Cada dia é um dia» (p. 416) « O mal e o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão» (p. 113) «Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência. Mas, com o tempo, todo o mundo envenenava de juízo. Eu tinha receio de que me achassem de coração mole, soubessem que eu não era feita para aquela influição.» (p. 186) Deixamos o pressuposto de que Riobaldo em seu passado de jagunço-filósofo parece se aproximar muito mais do empirismo do que de qualquer outra filosofia, pois a existência do diabo acaba se tornando uma metáfora para a natureza humana[13] em uma de suas faces. As passagens citadas, em especial a última, vêm ao encontro de nossa hipótese porque até mesmo para «ser ruim» seriam necessários constantes e «perversos exercícios de experiência». Assim, se as divagações de nosso filósofo do sertão concluem que o diabo não existe[14], por outro lado concluem: o mal existe e a questão inicialmente metafísica encontra a resposta tão procurada na maldade e na miséria humana[15]. Talvez, este outro lado do que seria a ética, seja a vereda de cada travessia humana, pois Riobaldo descobre pela vida dada na experiência que o mal não é excluído do mundo pela não-existência de Lúcifer, o mal se torna possibilidade para a existência de cada homem como uma das «veredas»[16] da travessia de cada instante do existir, pois minha idéia confirmou: que o diabo não há! É o que eu digo, se for [...] existe o homem humano. Travessia[17] Com estas palavras nosso querido filósofo do sertão termina de contar sua vida e dá por encerrada uma pergunta que contendo outras inúmeras desloca-se da esfera transcendente para a esfera ética do agir humano, o mal e o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão. (p.113). Quanto à célebre frase o real não está nem na saída nem na chegada ele se dispõe para a gente é no meio da travessia, numa analogia de idéias e diante do exposto, diríamos, o real tão buscado foi encontrado pela travessia da existência mesma de Riobaldo em meio a sua vida no sertão, foi na sua travessia singular de ser humano diante de um modo de ser acompanhado do valor de um instante seguido pelo valor de outro instante, onde cada dia é um dia no sertão, que deixa a ele seu mais sábio ensinamento, É [foi] o que a vida me ensinou (p.65) Quem sabe, este ensinamento seja o querer que o leva a falar sobre o passado como se fosse presente, pois é preciso se abstrair do próprio presente quando se fala sobre o passado para trazê-lo de volta mais uma vez, e, igualmente, abstrair-se do próprio passado, também em parte, para senti-lo vivo novamente. Neste movimento de ir e vir, Riobaldo seria um autêntico dialético, pois vive em parte[18] um todo que nunca sendo todo só o pode ser vivido em parte, vive o todo em parte, o instante, que nunca sendo só parte só o pode ser vivido no todo, são os fragmentos em memórias a sugerir: viver em lembranças é muito muito perigoso, pois a gente só sabe bem aquilo que a gente não entende. (p. 394)

[1] O que segue neste texto é apenas um possível caminho de interpretação, o caminho das minhas sensações, imaginação, pensamentos, dados por uma primeira leitura da obra, não tenho a pretensão de encontrar alguma verdade riobaldiana, apenas seguir as águas de um rio que não pode nunca parar, não é para isto que as palavras servem? [2] Este ensaio foi escrito para o curso Do Pós-Graduação em Literatura, UFSC, ministrado pelo Professor Doutor Alckmar Luiz dos Santo,2 semestre 2005. Resumo do curso: Teoria, para quê teoria?! Metodologia e retórica da leitura crítica. Pontos: discutir a posição do leitor diante do texto, a partir da obra de João Guimarães Rosa. Ao oscilar entre o imediato da leitura e um possível recuo reflexivo, nos vemos premidos entre sensibilidade e organização de idéias, entre intuição e construção de uma visada crítica. Daí a necessidade ingente e urgente de realizarmos uma leitura de nossa própria leitura, uma crítica da crítica, como diz Tzvetan Todorov. Ora, muito freqüentemente, essa metaleitura esquece a obra literária que lhe deu ocasião e motivo, resvala para um fechamento da leitura em que se sai da fabulação do literário, para se cair na fetichização de conceitos teóricos e de métodos críticos, quando não na mera exploração temática da obra ou do autor em foco. Uma tal metaleitura exibe a ilusão de uma pretensa autonomia: é como se o mero esforço de pensar teoricamente substituísse com folga o trabalho de ler; como se a pluralidade do texto literário pudesse ser trocada com vantagens pela mise en abîme de jogos teóricos vazios. Ao se propor um campo teórico que toma a cena da leitura, que se põe no lugar do texto literário, não é a leitura crítica que passa a ser também literatura, mas é a própria literatura que sai do espaço da leitura. É claro que não se defende aqui esse engodo de crer numa postura ingênua do leitor, desprovida de reflexões, de exercícios conceituais, das metaleituras a que nos referimos acima. Porém, há que se reconhecer que, entre um extremo e outro, há todo um universo de possibilidades a serem exploradas![...] Qual seria o papel de uma teoria nessa rearticulação incessante do literário que é a leitura? Para quê, afinal, uma teoria do literário? Cf. www.cce.ufsc.br/~alckmar/ [3] Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. [4] Todas as citações de Grande Sertão: Veredas inseridas ao longo do texto foram retiradas da edição da Nova Fronteira, referenciaremos somente a página que localiza a citação. [5] Platão. Sofista. Passagem 263 e — [6] Cf. Platão..., op.cit., 263 — 264 a — [7] Bergson, H. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Cf. p 86. [8] A aproximação filosófica com o empirismo associa-se muito mais ao tempo dado já nas recordações do que propriamente ao tempo dado durante às lembranças representadas, em outras palavras, haveria um plano de frente que é o da narrativa da vida de Riobaldo para o interlocutor, presente portanto, e um plano dado em segundo lugar que é a estória contada dentro do monólogo, porém, o plano dado em segundo lugar é o centro da obra e, no entanto, não mais existe além das representações em lembranças do personagem-narrador. [9] Não tenho como explicar isso neste momento, não sei se existe, se é possível, penso que sim, acabei de ter uma sensação e a defini assim: dialética da percepção. Estendi a Riobaldo por estar imersa nele nestes dias, mas sinto que devo a ele tal sensação-intuitiva, e se existe cartesianamente em algum filósofo, agradeço por tê-la encontrado via sensação e não via razão, muito provavelmente porque cheguei a ela através de vias literárias. [10] Em outra passagem uma referência similar: «Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! — só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada [...] Viver nem não é muito perigoso?» (GS: V: p.51) [11] O termo paradoxo se justifica pelos diferentes paradigmas filosóficos que vão surgindo no decorrer da obra no modo de ser riobaldiano e que são por sua vez distintos e remeteriam a uma contradição do próprio raciocínio riobaldiano, pois ora ele se aproxima do empirismo ora se aproxima do idealismo ora se aproxima da dialética platônica, do tempo irrecuperável bergsoniano, do ceticismo e até mesmo da recorrência aristotélica de predicar algo ao ser na tentativa de dizer o que «é» o ser. [12] Para quem leu com seriedade a obra maior de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas: a narrativa do personagem-narrador, Riobaldo, é para mim claramente um tratado da ética humana, denso, profundo, abordando várias partes da natureza do ser humano, o qual vai desvelando aos poucos um personagem_ talvez o próprio Rosa_ de rara beleza existencial, de raras sensibilidades ao se propor, solitariamente, grandes questões humanas, ao dar-se, solitariamente, as respostas feitas no silêncio e na vida do sertão. Mas, o sertão é do tamanho do mundo, esta frase de Riobaldo contém o significado de Vida: o sertão é o mundo todo, é o momento, o medo, a angústia, a proximidade da morte, o sentido não-compreendido, as relações humanas, o amor, a amizade, a fidelidade, a traição, o abandono, a esperança, a Vida. A análise que Riobaldo faz constantemente durante a narrativa é um exemplo de grande profundidade do « olhar » de um ser humano para outro ser humano. Que Riobaldo nos sirva, a todos, de exemplo da rara beleza de alma que um ser humano pode chegar a se tornar, a viver em sua passagem por « este mesmo e velho chão ». [13] «Esses não vieram do inferno? Saudações!» (p. 65) Riobaldo se refere às atitudes dos jagunços, atitudes nada nobres. [14]«A reza serve para sarar da loucura» (p. 32) de onde poderíamos deduzir que reza não serve para proteger contra satanás. [15] De outra forma: a natureza humana não é só objeto de especulações morais e filosóficas durante a narrativa de Riobaldo, é ela própria quem fornece ao leitor a resposta final sobre a existência do diabo, a obra inicia e termina com a mesma questão respondida finalmente através da natureza humana nada tendo, por fim, qualquer relação com uma ontologia transcendente ou teológica da eterna luta do bem contra o mal e representada por Deus ou por Lúcifer. [16] «O sertão é do tamanho do mundo» (p. 89) «o resto pequeno é vereda» (p. 90) [17] Grifo nosso. [18] Primeiro Soneto Barroco. “O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga que é parte, sendo todo.” Gregório de Matos. “Um simples conformar-me a olhos tais/Foi firme e certo intento em não querê-la:/Recusa de ceder ao que — tão bela — /Seria morte em mim, um fim, sem mais./E mais, ainda, a afronta desse viço/Que — tão contrário a mim — se faz arauto/Da dor com que me vejo louco e falto/Da força com que arrosta o fado imigo/Mas, deu-se o renascer (que nem é certa Idéia que de mim se afirme à custa)/E fez de outra fatura o meu olhar-te:/E fez de mim — ruína que antes era —/Um ínfimo infinito: imagem sua,/Ao dar-se em todo inteiro o que era parte.” Luiz dos Santos, Alckmar. Cf. Jornal de Poesia. http://www.jornaldepoesia.jor.br/alckmarsantos.html

(final da primeira parte do ensaio)

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