sábado, 18 de abril de 2009

Esquecimento: Literatura & Filosofia

ESQUECIMENTO
Literatura & Filosofia
(livro org. por sandra adriana fasolo)
Editora Panci 2009
Re: Qu'est-ce que c'est Es-que-cer?
“São begônias européias ao pé dos nomes? Vejo um alaranjado tão vida.
Que recordar é dar cordas ao coração. Que é esquecer?” César Cês
Índice
Introdução.04
Até as estações são volúveis Por André Comte-Sponville.19
A Arte de Esquecer Por Charles Feitosa.42
Ricoeur e o Testemunho da Desconfiança Por Ramiro Corrêa.46
Por uma nova modernidade De Felipe Fortuna.60
Tapeçarias literárias em O Livro dos nomes Por Rodrigo Guimarães.67
Sobre o Poeta de Epígrafe.80
Sobre a organizadora.81
Introdução Por Sandra Adriana Fasolo
A epígrafe do livro abre com versos do Poeta César e pergunta através de uma construção da língua francesa ‘o que significa esquecer’? É provável que seja uma pergunta como tantas outras da esfera filosófica a não possuir uma verdade ou uma resposta absoluta. A história da filosofia e da literatura está pontuada por variadas tentativas, marcadas, sobretudo, a partir do século XX como é o caso dos autores aqui presentes, por diferenciais de representações, significados, conceituações, definições, valorações e sentido buscado. O filósofo Heidegger foi um expoente e tanto na procura do sentido do ser, talvez tenha ele sido o filósofo-do-sentido se pensarmos na questão principal que abre sua mais importante obra Ser e Tempo, onde se pergunta pelo sentido do ser. E, quem sabe, perguntar aqui pelo sentido do que seja esquecer, ajude a situar a questão dentro de um ponto de vista que abarque a circunstância daquele que pretende conceder uma resposta, satisfazendo não só a busca si mesmo, mas a um número maior de leitores ou de pesquisadores-sentintes sobre o que seja o esquecimento. O fato é que todos sabemos, para Heidegger o sentido do ser reside na estrutura binária do velamento-desvelamento das coisas que constituem o ente em seu ser-aí em ser-no-mundo, sob essa compreensão se pressupõe que tal estrutura constitui o sentido do ser como o fundamento no qual o ente se move em sua existência _sendo_ em contínuo devir enquanto o ente aí estiver sendo presença. Não somente um ser para a morte, mas um ser a se alternar existencialmente a partir da origem do esquema binário: velar-desvelar, o qual, se pressupõe, deve estar presente em todas as outras coisas que são partes constitutivas do homem. Por esta linha de raciocínio, pensamos que há um sentido para o esquecimento que está além da inautenticidade colocada por Heidegger, isto é, se o ente tem a abertura para o sentido de si mesmo, desvelando o que ainda se encontra velado, e com base no raciocínio da estrutura binária, a hipótese de que a angústia se mostre como a principal condição de presença no mundo deve ter relação direta com a questão de se procurar dar um sentido ao esquecimento. Nossa intenção aqui é fazer um contraponto entre Heidegger e os autores que colaboraram para a realização deste livro, o que vamos tentar explicar. Em Heidegger o fundamento do sentido do ser encontra-se na angústia e na estrutura binária de velamento-desvelamento: há uma angústia-inautêntica e uma angústia-autêntica; a primeira: velada pelo esquecimento do ser e que se faz presente no modo de ser da inautenticidade exatamente por se encontrar velada pelo niilismo cultural; a segunda, desvelada na autenticidade através da angústia que se descobre enquanto tal frente à consciência de finitude originando assim o niilismo heideggeriano e um esquecimento necessário do ser. Assim, se de um lado precisamos deixar de esquecer o sentido do ser, de outro, lembrar de esquecer este mesmo sentido, como uma alternância que no encobrir e no descobrir converte-se na forma paradoxal de o ente sentir e pensar sua existência. Diante deste esquema binário há dois caminhos dos modos de ser do ente: autêntico e inautêntico, liga-se a inautenticidade à angústia-inautêntica e ao niilismo cultural que impulsionam o ‘deixar-se viver’, enquanto podemos dizer que aí no esquecimento do ser a angústia não pode ainda ser angústia autêntica, já que permanece velada. Liga-se também a autenticidade à angústia-autêntica e a um niilismo do ‘não deixar-se simplesmente viver’, enquanto podemos dizer que no desvelamento do que antes estava esquecido (a própria consciência de finitude diante do fato de que se morre, por exemplo) possuímos o sentido de existir, desde que seu desocultamento retira o ser do velamento. Deduz-se que nem tudo que está velado se constitui como algo de valor enquanto este algo não for desvelado e compreendido, pois, talvez, exatamente o ocultado seja o que impede o ser de sair do esquecimento de si mesmo e de se compreender diante de sua existência. O velamento do ser pode ser visto como a sua auto-sobrevivência, porém, falsa, conformista e ilusória, um certo temor diante de um possível devir ou vir-a-ser: a consciência que chega pode vir a aniquilá-lo ou transportá-lo para um contínuo desvelar de seu ser-aí no ser-no-mundo a partir do desocultamento de seu próprio esquecimento com origem na angústia velada, disfarçada, não-autêntica. Antes de ser um ser para a morte o homem é um ser para a angústia, pois embora a angústia tenha sua origem no pensamento da possibilidade da morte é a angústia que antecede a própria morte sendo, portanto, o sentimento que move o ente durante seu existir. Enquanto a morte for possibilidade sinaliza ainda o viver possível, já que a morte não se concretizou realmente; enquanto a possibilidade existe, existe também o ente e seu sentimento de angústia frente a ela, é a possibilidade que permite ao homem perceber que está vivo, sua própria angústia aponta para sua existência; velada, o conduz por um caminho inautêntico, desvelada, converte-se no construir-se a si próprio: o sentido de que precisa para viver não mais repousado em explicações realistas, mas sobretudo sendo substituido pela percepção de um ente que o sabe: é um ser para a realidade de si próprio. Cita-se Kierkegaard: ‘Se algúem souber tirar proveito da experiência da angústia, se tiver coragem de ir mais além, então dará à realidade outra explicação: exaltará a realidade e, até quando ela pesar duramente sobre ele, recordar-se-á de que ela é muito mais leve do que era a possibilidade.’ A experiência de que Kierkegaard fala obviamente não é a da angústia imersa em uma não-lucidez, não se refere ele a uma angústia inautêntica, porque é claro que muito embora nem todos percebam a angústia de um modo autêntico ainda assim se faz presente em todo e qualquer homem: todos sentem ao menos superficialmente seu existir; coragem de ir mais além traduzida pela coragem de abertura e desvelamento da angústia-inautêntica para a da autenticidade, em outras palavras: na lucidez de finitude de que somos invariavelmente um ser-no-mundo, mas um ser para-a-morte, uma lucidez para o nada que pode conduzir o homem para a saída desse nada....; então dará à realidade outra explicação, ou seja, o próprio viver autêntico de desvelar o sentido do seu ser; exaltará a realidade, não mais a realidade de um suposto mundo transcendente como mostra toda a tradição ontoteleológica, mas um exaltar a realidade mesma que não é independente da existência do ser-aí e ser-no-mundo. Que sentido pode haver em uma realidade que rouba o sentido de viver? uma realidade a tornar o homem um ilusionista que teme mover-se na realidade concreta?; e quando ela pesar duramente sobre ele, recordar-se-á de que ela é muito mais leve do que era a possibilidade de sentir que, embora não se possa mais conduzir a vida em detrimento de uma outra vida que apenas se supõe que possa existir _com suas garantias unicamente em palavras e sistemas ontoteleológicos criados pelo próprio homem_ pode vir a dar-lhe uma nova compreensão: a temível morte em vida acaba por se tornar mais leve do que a angústia do viver inautêntico, a qual prometendo felicidade nada mais faz do que destruir o que se poderia ter realizado para si e para o mundo que cerca o homem. Na certeza da morte apossa-se do tempo presente e a presença do ser a movimentar-se num tempo que é agora, apenas somado a possibilidade finita de outros mais, fornece ainda a certeza do contínuo, porém finito, devir. O próprio Heidegger afirma que a angústia livra o homem das possibilidades nulas e o torna livre para as autênticas. Mas de que angústia Heidegger está a falar? Desde que não podemos dizer que o homem seja completamente destituído de angústia, ainda que não reflita sobre isto, ainda que imerso na angústia-inautêntica na não-lucidez de si mesmo, constitui-se como um ser-para-a-morte do qual não pode fugir inteiramente. Se o ente viver na inautenticidade por toda ou quase toda sua vida sem saber de onde provém sua real angústia terá se perdido em seu próprio destino, preciso é que se desvele a angústia inautêntica em autêntica, muito embora isto não venha a significar que o desvelar da revelação emotiva de sua condição humana no mundo irá libertá-lo completamente da inautenticidade. A compreensão de sua condição não o retira por completo do antigo modo de ser, apenas o transforma interiormente, o concreto não permite livrar-se da inautenticidade contingente, talvez necessária. Isso leva a um paradoxo imposto pelo mundo mesmo tornando necessário o esquecimento do sentido do ser, sem o qual o homem não conseguiria continuar vivendo_ há então a presença de uma circularidade que ora o leva a autenticidade, ora o leva a inautenticidade, mas já não mais como antes. Estruturas binárias que acompanhariam o ente em seus modos de existir: estando e sendo condenado à liberdade entre uma e outra sem, no entanto, ter direito a uma completa liberdade de permanência na forma autêntica_ pois que homem teria toda a força necessária para não esquecer por um átimo de momento que é um ser para a morte e poder continuar vivendo como um ser-no-mundo a movimentar-se em relações que permitem seu espaço no cotidiano sem o qual morreria? Talvez fosse sensato dizer que antes de ser um ser para a morte ou um ser-para-a-angústia o homem é um ser paradoxal que luta consigo mesmo e com dois modos de ser que o constituem e necessários ao seu existir: um mundo que remete logo ao imediato de relações concretas, envoltas em banalidades e onde o esquecimento do ser se faz necessário; outro mundo que se desvela, mas que se pensado continuamente tornaria o homem escravo de si próprio sem que conseguisse viver o concreto. Barthes faz uma referência a essa idéia utilizando o amor como exemplo e ligando-o à essência e a existência, é possível estendê-lo para outras coisas que envolvem o ente como, por exemplo, ao esquema binário: ‘quero compreender_ compreender: ao perceber repentinamente o episódio amoroso como um nó de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas, o sujeito exclama: quero compreender (o que acontece) que é que eu penso do amor? Em suma, não penso nada. (...) estando do lado de dentro eu o vejo em existência, não em essência. O que quero conhecer (no caso o amor) é exatamente a matéria que uso para falar (o discurso). A reflexão me é certamente permitida, mas como essa reflexão é logo incluída na sucessão das imagens, ela não se torna nunca reflexividade: excluído da lógica (que supõe linguagens exteriores umas às outras) não posso pretender pensar bem. Do mesmo modo, mesmo que eu discorresse sobre o amor durante um ano só poderia esperar pegá-lo por flashes, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos pelo grande escoamento do Imaginário; estou no mau lugar do amor, que é seu lugar iluminado: ‘o lugar mais sombrio, diz um provérbio chinês, é sempre embaixo da lâmpada.” Se isso for pensado em relação à angústia percebe-se que enquanto a existência se dá de forma não-reflexiva permanece no nível de se estar nas coisas concretas do mundo, em outras palavras, vive-se, é ação, e enquanto se vive não se reflete no verdadeiro sentido de pensar sobre algo que envolve a existência em dado momento, aí a reflexão, a consciência e a compreensão da angústia e da finitude não pode se manifestar realmente, pois quando se vive algo em existência não é possível vivê-lo em essência: o ente ficaria condenado à total inação ao se perder num mundo somente reflexivo ou, do contrário, não chegaria nunca a autenticidade do sentido do ser impulsionado pela angústia de que se é um ser para a morte, porém antes que isto se concretize se é um ser para muitas outras coisas. Há alternâncias entre os dois modos do ser se manifestar ligada a uma necessidade mesma de sobrevivência, há uma necessidade de um não desvelamento contínuo com o qual o homem jamais conseguiria continuar se movendo no mundo concreto. Como uma espécie de paradoxo, permite ao ente viver concretamente sem cair no total esquecimento de si próprio, permite, por outro lado, desvelar seu ser, contudo o risco de desejar permanecer sempre ou para sempre no lugar mais luminoso pode ser uma experiência que eleve a angústia, então desvelada, a um peso muito grande: longe de estar-aí no mundo não seria mais do que uma consciência imersa na inação. Seja no extremo do viver inautêntico, seja no extremo da compreensão do sentido do ser comprometendo as coisas cotidianas, rotineiras, concretas e necessárias, a condição humana corre o risco de se deixar seduzir pelo lugar mais luminoso, pois o mais sombrio não pode ser prescindido por completo. Que homem viveria somente no movimento de suas reflexões na busca do sentido do ser ou unicamente no movimento que se dá no cotidiano sem que isto soasse como o pior de todos os esquecimentos? A intenção é chegar a investigar que a angústia inautêntica desvelada em autêntica a partir da consciência de finitude precisa de um equilíbrio para a compreensão e aproximação do ser-aí em ser-para-si-mesmo seu sentido para o mundo. O mundo impõe sua condição ao ente: o cotidiano que o arrasta de volta para a inautenticidade é condição de sobrevivência e o niilismo, que pode vir a aniquilá-lo, não deve ter um fim no próprio no nada do concreto, pois que sentido haveria num sentimento de nada que tivesse seu fim nesse mesmo nada? O ente sente que ‘o aniquilamento que já foi experimentado (primitive agony) e cujo temor (de morrer) mina sua vida, já ocorreu, permite seu viver autêntico ainda que retorne infinitas vezes: o sentimento da angústia não é maior do que ‘o temor de um luto que já ocorreu. Seria preciso que alguém pudesse dizer: não fique mais angustiado,’ você já morreu diversas vezes em seu pensamento (ou em todos seus modos de sentir a si mesmo). A cada vez que a experiência da verdadeira angústia aplacar-se sobre o homem aliviará seu destino, pois ele poderá afirmar para si mesmo: ainda existo, ainda são as possibilidades que me cercam e o temor do abandono e esquecimento total e definitivo do meu ser (a morte) é ainda mais leve do que o meu total esquecimento, enquanto existia antes protegido falsamente na angústia-inautêntica _ é ainda somente a possibilidade que me angustia, mais dura do que a realidade do sempre possível morrer, menos do que a angústia diluída no esquecimento do meu ser. A compreensão tem seu paradoxo se de um lado nos conforta em meio a uma pretensa idéia de que nos compreendemos potencializando nossa consciência de finitude, acaba por nos desvelar um mundo cada vez mais denso e ainda que haja uma luz a iluminar o sentimento de perda, uma espécie de niilismo como se nos perguntássemos: o que faço eu aqui vivendo dessa forma no ir-e-vir do meramente banal que o mundo impõe? ou: o que faço eu aqui buscando o sentido do meu ser que eu sei finito, longe do ir-e-vir concreto-cotidiano-mesmo das coisas do mundo? Não deveria eu estar me movimentando no cotidiano e na angústia não tão densa, pois não-tão pensada posso dar-lhe as costas sem querer me compreender? Não há então uma angústia e também um niilismo_ uma nada querer_ sob o ponto de vista do viver inautêntico? São nossas ilusões que mantêm vivo nosso desejo de não-angústia, tão poderoso quanto qualquer deus criado_ é para a não-angústia que nos movemos falsamente em direção ao realismo e são nossas ilusões e nossos medos que nos conduzem por caminhos distantes da clareira do ser. Refletimos na finitude do próprio fim do ser-aí e os passos dados no agora acabam por se tornar a esperança em Heidegger_ o caminho que fica no meio é o único que podemos ter: nem princípio (de onde viemos, por que viemos? por aqui e não lá? por que agora e não muito antes ou muito depois?) nem fim (para onde vamos quando tudo realmente tem fim?) não deve ser sobreposto à idéia de que o rio que corre, não importando de onde nem para onde vai ou se tem fim se constitua no sentido mais valioso para o nosso existir, nada mais do que o cuidado para consigo próprio: o ser-sendo em sua exclusiva existencialidade. Pode-se ainda pressupor que o niilismo esteja presente em ambos os lados, embora radicalmente oposto em seus modos de perceber o mundo: no velamento da angústia temos o niilismo que se aproxima de Nietzsche_ as críticas feitas por ele a toda história da cultura ocidental é responsável pelo esquecimento do ser_ no desvelamento temos o niilismo heideggeriano do mais absoluto e completo sentimento de nada: a consciência de que a morte é a única certeza onde a possibilidade de uma escolha extrema (decidir não morrer jamais) nunca poderá acontecer, acaba por se mostrar como possibilidade de transvaloração, do ente que somos em um ente que tem consciência de que quer tornar-se isto ou aquilo. As escolhas definem seu destino embora somente até a morte, pois não mudam em absoluto a morte enquanto destino inevitável. O sentido para o esquecimento, segundo nossa análise, passa, portanto, pela angústia heideggeriana, pelo viver autêntico e inautêntico, onde o movimento do esquecer é que parece dar o movimento do que lembramos, do que lembramos de esquecer, do que esquecemos, do que esquecemos de lembrar, do que tentamos lembrar e não conseguimos, do que tentamos esquecer e não conseguimos, do viver simultâneo do lembrar-e-do-esquecer, onde, quem sabe sejamos um só, a nossa unidade de ser_ binária, sempre binária. Em contraponto com o esquecimento em Heidegger: os nossos ensaios Os ensaios que seguem são todos brilhantes e instigantes, cada um a seu modo tenta valorizar o esquecimento, não como um modo de viver inautêntico, como o foi para Heidegger, mas como um modo de ser tão ou mais feito de sentido do que o lembrar. No ensaio que abre a discussão, Até as Estações são volúveis, Sponville começa pel’O passado (que) não é mais, o futuro ainda não é; o esquecimento e a improvisação são fatos naturais. O que é mais improvisado, a cada vez, do que a primavera? E o que é esquecido mais depressa? A própria repetição, tão impressionante, não passa de um logro: é por se esquecerem que as estações se repetem, e justamente por causa do que torna a natureza sempre nova que ela só inova raramente.” Numa linha bergsoniana valoriza o esquecimento como forma de movimento da vida, da criação, do novo, do mundo, para SPonville é o esquecimento que faz a diferença no cotidiano do ser e o enche de sentidos outros. Em A Arte de Esquecer, o autor Charles Feitosa, aborda o assunto pela definição da memória em oposição ao esquecimento. Pergunta ele: “por que então esquecer?” De vertente nitidamente nietzschiniana, o esquecimento é para o autor “a condição de possibilidade de tudo que é grande, saudável e nobre no homem”, indo numa direção controversa à abordagem de Ser e Tempo. No ensaio, Ricoeur e o Testemunho da Desconfiança, o autor Ramiro Corrêa, faz uma análise contundente a partir de passagens d’O testemunho, de Ricouer. O esquecimento seria a condição de possibilidade do passado, testemunho que se enlaça com a dúvida, a suspeita, a desconfiança. Instigantes questões são colocadas sobre o testemunho em contraponto com o valor da dúvida, mas, sobretudo, como conclui Ramiro de forma sensível e sábia: ‘o de saber escolher amigos, os amores (...) a vida como testemunho permanentemente silencioso, sem necessidades de provas’ Por uma nova modernidade, de Felipe Fortuna, analisa o pensamento sobre a Poesia a partir do trio infernal Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé, fala das análises de dois grandes críticos literários. Neste texto não há uma referência direta ao esquecimento ou à memória, mas será fácil ao leitor perceber que ambos possuem sua presença nas abordagens que o autor realiza com muita propriedade e conhecimento, como quando diz que “o crítico italiano, ex-professor da Universidade de Veneza, combate ao ponto da indignação, a tese fundamental de Estrutura da Lírica Moderna, manifestando-se perplexo com o esquecimento da “pluralidade de vozes que agem ou podem agir na poesia”. O último ensaio, Tapeçarias literárias em O livro dos nomes, de Rodrigo Guimarães, fala sobre a obra da escritora Maria Esther Maciel, em especial, sobre O livro dos nomes. Através de uma bela análise sobre a obra da autora, Rodrigo Guimarães coloca que ‘O livro dos nomes encarna-se numa linguagem que recebe com atenção os cantos e corredores, os lugares de esquecimento e de passagens’. Fornecendo vários exemplos retirados d’O livro dos nomes, Rodrigo conclui no final do ensaio que ‘é essa certeza de não ter a sua própria memória (o modo de ser dos personagens) que alarga os possíveis dessa escritura. Portanto, memória e esquecimento não são abordados como campos estanques, pois essas esferas respondem à forja do desejo (visto por Irene como rapto) e seu poder de ficcionalização que, nessa obra, alcança eficácia simbólica e disruptiva sem emperrar o fluxo ficcional com palavras vagas e indeterminadas, ou com a outonização afetiva endereçada ao tédio ou à inércia causada pela repetição nostálgica.’ O livro dos nomes se coloca como um excelente caminho, a partir da Literatura, para quem pensa e deseja adentrar-se por esta questão ainda tão paradoxal: a do esquecimento. Mas, deixamos, enfim, aos leitores a possibilidade de escolha na leitura, no conhecimento, na pesquisa, na vida, lembrando que às vezes uma escolha lembrada pressupõe por certo inúmeras escolhas esquecidas e que uma escolha antes esquecida pode abrir infinitas outras formas de lembrar. Desejamos: lembranças e esquecimentos, na medida do possível para cada um. Sandra Adriana Fasolo Ilha. 2009 (espaço dos ensaios...)
_____ Algumas palavras do Poeta da Epígrafe: Sofre de ár-vores, tem inclinações para crepúsculo, habita os imperecíveis do viver e não é mais do que a infância; E ai, acredita chorando (na vida), que sim, infância e futuro morrem jamais. (E também se esquece de si, sendo lá) * * Beijos-para-não-esquecer. * César Cês __
Algumas palavras sobre a organizadora do Livro: nasceu em Santa Maria, RS, já foi Contista e um dia quis ser Filósofa de Carteirinha, mas percebeu que não é bem o seu mundo, pelo menos não aquele que procura viver: com Vida lírica & suave. Atualmente escreve Fragmentos Lítero-Filosóficos (blogando), cursa Pós-Graduação em Filosofia Clínica com o Professor Bruno Packter, às vezes cursa disciplinas no Pós em Literatura da UFSC, pinta as paredes do seu quarto com mosaicos-pitagóricos-ilhéus, passeia de bicicleta pela orla do mar, é viciada no aroma da maresia, cafés e, infelizmente, cigarros e perfumes importados, adora barcos, ama Chico Buarque & tudo que é liricamente belo. Possui seis blogs, dois literários, dois filosóficos, dois lúdicos. Quanto aos lúdicos: um para sua irmã Anita (Panci) e outro com imagens da Ilha da Magia. Tatuou Platão em grego no pé direito com algumas Flores para os Poetas Franceses & para o Poeta Das Argilas (Manoel de Barros) que ensinou para ela e para César que: “À noite o silêncio estica os lírios”.

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