terça-feira, 20 de setembro de 2005

Pensamentos soltos sobre o ensaio do filósofo Lúcio Packter, Um segundo

Pensamentos soltos, em alguns vários segundos, sobre o Ensaio do Filósofo Lúcio Packter, Um segundo by Sandra Fasolo
Borges pergunta em um de seus ensaios: ‘o que terá sonhado o tempo?’ As respostas, poéticas, dadas pelo escritor argentino são de uma beleza imensa, uma delas diz, ‘o tempo sonhou que alguém o sonhava.’ A pergunta, de onde todo o texto se origina, já contém em si muita beleza em pouquíssimas palavras, aliada ao ensaio de Lúcio Packter torna-se possível uma associação packteriana-borgeana: o que terá sonhado o tempo dos nossos segundos? Daqueles já pertencentes ao mundo da finitude. Daqueles esperados pela finitude: os segundos sequer_ ainda_ sonhados? Não sei se é o meu ceticismo sempre aberto à vontade de viver seu segundo, o fato é que acabou por despertar um pensamento solto, o pensamento de que uma vida inteira não é suficiente para olhar para esta mesma vida, senti-la ou ainda compreender os seus infinitos segundos em sua plenitude. Juntamente com a finitude da existência, finitos em suas possibilidades, uma vida não seria suficiente para estes milésimos de segundos, átimos de tempo, afundados ou aprisionados no andar não-percebido do passar à margem da vida_ passar ao lado.
Algo no ensaio do Filósofo Lúcio Packter despertou-me, além do breve segundo cético, uma antiga imagem: a imagem de uma fotografia em forma de postal. Após ler o texto fui caminhar na beira da praia com a presença dessa lembrança e às voltas com meus pensamentos soltos_ pensamentos de segundos_ tentei resgatar em minha memória esta imagem em seus mínimos detalhes, desejava vê-la por inteiro para tentar perceber sua associação com as palavras de Lúcio. Vou lembrando aos poucos, a imagem é em preto e branco, parece de um pôr-do-sol, faz frio, sensação de neblina, há uma criança sentada à beira de um lago, nas minhas lembranças eu a vejo sentada no chão a abraçar as pernas, na margem em frente, uma casa ao fundo, o céu, os galhos das árvores de outono. Recordo da sensação provocada pela imagem quando a vi pela primeira vez, a sensação foi originada pela estranheza da figura da criança, ela olha para frente, olha muito ao longe, de perfil parece olhar para o nada e para tudo, parece abstrair, a sensação é de estranheza pois paradoxal, uma criança abstrai, uma criança olha para o nada e, no entanto, como se fosse o segundo do tudo abstrair. Imagem propicia a provocar uma sensação transcendente e, no entanto, tão empírica, pois crianças são empíricas, por natureza, como tão bem definiu Bachelard. Talvez o texto de Lúcio Packter, tenha feito com que eu entrasse em recíproca de inversão com uma imagem pertencente à minha memória, eu me senti, por um segundo, como a criança-abstrativa do lago, enquanto estava eu a caminhar à beira do mar. Pensei que se o mar fosse pura abstração, a vida talvez pudesse ser explicada pela imensidão das águas, pela energia colocada pelo mar no movimento das águas a formar suas contínuas ondas_ energia incessante e incansável para o movimento de si próprio_ o mundo poderia ser, então, explicado pelo mar_ se o mar fosse pura abstração. Talvez a criança da imagem pensasse no seu mundo, talvez pensasse em coisas infantis, talvez apenas observasse a outra margem do lago, quem sabe fosse o seu segundo de passar ao lado do mundo. Eu, talvez, estivesse a re-viver sensações, a lembrança, talvez tivesse sido despertada pelo ensaio em um segundo, só um segundo, com uma diferença, foi um segundo seguido por muitos outros.
Quando retornei para casa procurei o postal da imagem para conferir com o lembrado, a criança não abraça as pernas como eu pensei ter recordado com fidelidade, ela realmente se encontra sentada e tem o olhar distante, mas uma de suas mãos apóia seu corpo enquanto a outra está sobre uma de suas pernas, ambas dobradas, está descalça e um de seus pés quase toca a água. É uma imagem triste. Talvez a fotógrafa, uma porto-alegrense que ganhou um prêmio francês em 1922 por esta fotografia, tenha levado só um segundo para deixá-la registrada para o mundo, uma imagem real, simulacrada. Tanto ‘se’ e tantos ‘talvez’ remetem a possibilidades futuras para segundos a se seguirem com a vida real e outras mais; também remetem a possibilidades passadas, aquelas dos segundos não abstraídos, não-percebidos, não-sentidos em sua plenitude, portanto, perdidos, e perdidos duplamente: para a finitude do tempo que se esvai continuamente e para a vida que passou ao lado pela não-percepção do que eles poderiam ter sido e não foram. Infinitos e incontáveis segundos, nos quais, junto a eles, apenas passamos pelo mundo, ao lado, aqueles segundos do fluir pertencente à realidade cotidiana e repleta do ‘mesmo’ os quais não nos permitiram sentar à beira do lago e abraçar a vida_ a nossa e a das pessoas amadas_ porque não o fizemos pelos segundos suficientes, teriam feito toda a diferença para os segundos futuros ao lado de tudo o que somos.
A criança da imagem, agora a compreendo através da sensação inicialmente despertada, é a imagem de um ser humano que cedo descobriu o valor de um segundo. A imagem é, ainda, fixa, não por ser somente um simulacro, ela em si mesma não passa a sensação de movimento, percebe-se, nada se move, é uma imagem sem movimento, o ponto central é o pensar da criança, o movimento se concentra aí, nessa sensação de abstração eterna. São as nossas sensações sobre ela a conter o movimento que em si ela não possui. Os segundos dependem, assim, de nossa representação_ o tempo todo. O tempo do nosso passado seria o mesmo de uma imagem representada na memória?
Por um segundo que fosse ao trazê-la de volta? Por isso, abro as janelas novamente e à beira do lago, farei o esforço do “albatroz que pára imóvel no ar”, como imagens fixas do passado em nossas lembranças, imagens que podem ter sido fixadas de um modo outro que não o real, como na da criança que abraçara as pernas e não fora nada disso.
Então, ‘Pegarei pela mão’ a criança, que acredito ainda haver em cada um, e sem saber ‘onde ou porquê’, pedirei, por um segundo: não abra as janelas totalmente somente por pensares, ‘ninguém fará com que eu possa fechar os olhos’, por pensares, ‘não ouvirei mais nenhuma canção de ninar’. Por um segundo, sermos capazes dessa canção de ninar como se fosse uma cantiga de para “sempre” e não de um segundo_ talvez não, pois a representação dada a ele poderá ser levada por muito tempo à frente entre outros possíveis segundos, multiplicados e transpostos em associações de lembranças, como no ensaio de LP, onde um novo segundo, somou-se para mim a um antigo segundo em memórias-de-imagens. Agora, outras mais. Penso, nesse exato segundo, que Lp, às vezes, por um segundo brevíssimo, lembra o menino do lago a olhar distantemente para o nada e para tudo, o menino que abstrai ao longe, por um segundo permitido em silêncio e tão somente a si mesmo. Mas, também por um segundo, alguém o observa, também de longe, e sente, neste segundo, o segundo de LP-Criança a abraçar e a amar a vida, talvez muito mais a vida dos outros que a sua própria. Eis o segundo mais precioso de LP, oculto na imagem de uma criança à beira do lago, mas não à margem da vida. São os segundos dos Ecos de uma vida que não passa ao lado.
Echoes Pink Floyd
“Lá no alto, o albatroz pára, imóvel no ar E bem debaixo de ondas agitadas Em labirintos das cavernas de corais O eco de uma maré distante Vem projetar-se sobre a areia E tudo é verde e submarino E ninguém nos apresentou à Terra E ninguém sabe o “onde” e o “porquê” Porém alguma coisa encara Alguma coisa tenta E começa a escalar em direção à luz Estranhos que passam na rua Por acaso, dois olhares separados se encontram E eu sou você e o que eu vejo sou eu E eu pego você pela mão E te conduzo pela terra E, ajude-me, a entender o melhor possível E ninguém nos chama para a terra E ninguém passa por lá vivo E ninguém fala E ninguém tenta E ninguém voa ao redor do sol E agora este é o dia de sua queda Sobre meus olhos acordados Convidando e me incitando a levantar E através da janela na parede Atravessam em raios de luz solar Um milhão de embaixadores brilhantes da manhã E ninguém canta para mim canções de ninar E ninguém me faz fechar os olhos Por isso, eu abro as janelas novamente”.
Anna K. & a época em C'anna's

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