domingo, 11 de setembro de 2005

Jouve e Tasso

Jouve e Tasso : no último parágrafo do texto Jouve fornece a sua interpretação sobre os personagens Clorinda e Tancredo: "Tancredo, seria o guerreiro leal, representa a pessoa do próprio poeta. Clorinda, parte feminina de si próprio, é a sua poesia, o seu ideal, a obscura psique que se vai juntar à sua alma. Alma que é pagã, infiel, disfarçada num inimigo. O combate, que poderia suavizar por um instante como a vulgar dor, recomeça com uma insensata provocação do inimigo. Conduz à morte, e a morte é dada a um guerreiro desconhecido. A loucura recai sobre Tasso mas ele reconhece Clorinda. Chora." Anna & Jouve dividindo interpretações sobre a loucura de Tasso. 2ª Parte
Quando Jouve escreve: "O combate (...) recomeça com uma insensata provocação do inimigo. Conduz à morte, e a morte é dada a um guerreiro desconhecido. A loucura recai sobre Tasso mas ele reconhece Clorinda. Chora"_ Anna interpreta da seguinte forma: a luta, o combate entre duas polaridades que não se excluem, mas que se completam, precisam uma da outra pois estão no interior de um mesmo "ser", é desencadeada mais uma vez por uma provocação do inimigo. Este, personificado pelo humor melancólico de Tasso, pode ser visto como a sua própria loucura, é uma parte dele mesmo que é vista como o inimigo, é o "parcial" do seu psiquismo desvelado na loucura, é Tasso a favor e contra ele próprio. A insensata provocação tem origem nesse psiquismo "fragmentado" que dá origem a uma nova luta travada dentro da consciência. O desejo de libertar-se desse "fragmento", "uma espécie de ilha no centro do psiquismo geral"_ a´loucura_ exige a morte desse centro parcial, e a morte é dada a um guerreiro desconhecido: a loucura, como bem colocou Daniel Leuwers na introdução do livro de Jouve, tanto como as máscaras do poeta, é uma luta entre dois termos igualmente desconhecidos porque ignoramos a ambos". Tasso sabe que para libertar-se da sua própria loucura precisa matá-la, extirpá-la de seu ser e de sua consciência, ele também sabe da impossibilidade dessa liberdade, então o faz pela via da ficção: faz Tancredo matar Clorinda que representa la folie. Citamos novamente o final da interpretação de Jouve: "A loucura recai sobre Tasso mas ele reconhece Clorinda. Chora". Ou seja, Tasso não se livra da loucura que o habita e o atormenta, ele tem consciência disso, é para ele uma 'ilha' conhecida (porque é uma parte de seu ser desvelado, ainda que não o queira) e paradoxalmente, des-conhecida, ele, na verdade, nada sabe sobre sua loucura já que não consegue comandá-la, controlá-la. O poeta liberta-se por momentos na ficção, porque é na criação que a loucura deixa de ser prisão para se tornar, em vez de ilha, o oceano que a rodeia, as águas que fluem. Assim, dialeticamente, o seu "eu lúcido" é aprisionado no instante do ato criador enquanto a loucura transforma-se em liberdade para, depois, mais tarde, tornar-se morte na ficção. Tasso muito provavelmente intui: quando o eu que se julga lúcido e livre retornar à luz do dia, o outro eu, da própria não-lucidez, estará novamente aprisionado. As duas bifurcações possíveis para sua liberdade: ou a ficção ou a loucura na pura realidade, quando nesta, a vida real de Tasso lhe foi pesada e atormentada. Foi na ficção que a loucura lhe concedeu a suavidade de existir e de ser. E foi na loucura que a ficção ganhou um grande poeta.
Anna & As Divagações sobre a Loucura de Tasso 3ª Parte

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