segunda-feira, 12 de setembro de 2005

La folie de Tasso na Vida Real e na Ficção

Madrugada de uma noite qualquer, leio a obra de Pierre Jean Jouve: Folie et Génie, Loucura e Gênio. O escritor francês analisa três grandes poetas: Tasso, Hölderlin e Nerval, partindo da loucura como ato criador da poesia, em outras palavras, partindo de uma loucura real transposta para o não-real da ficção que é, paradoxalmente, real para aquele que a vive. Deixo aqui, um breve resumo da vida de Tasso e alguns comentários de Jouve sobre a vida e a obra do poeta. "Torquato Tasso, nasceu em Sorrento no ano de 1544, durante muito tempo surgiu como figura por excelência do poeta louco. A vida de Tasso é uma tempestade. De constituição frágil desde criança, constantemente exausto com trabalho (...) mostra um humor sombrio e ciumento. (...) 'Era melancólico ou mesmo um pouco melancólico de mais, se o quisermos', diz Manzò, seu biógrafo em vida. Após a perseguição da Igreja por causa da sua obra Jerusalém Libertada, recebe conselhos por parte do clero de "refazer sua obra", mas as críticas dos censores acabam por constituir as próprias idéias delirantes e o narcisismo do poeta. Num episódio, em 1576, enquanto narrava_ para a Princesa Lucrezia_ a história, tantas vezes repetidas, dos seus infortúnios, sente-se espiado por um criado: dá-lhe uma facada. Tasso é fechado num quarto do Palácio pelo Duque de Ferrara, depois é solto e internado num convento. É um período em que a mania de perseguição assume uma forma de temor de heresia." O poeta teme a Inquisição em função de sua obra. Foge e leva uma vida de andarilho por vários lugares da Itália e da Alemanha. Acaba retornando para Ferrara onde reencontra a princesa Eleonora e tem "a ousadia de declarar-lhe o seu amor. Em plena corte, explode de fúria, de insultos, de ameaças. Amarram-no, levam-no para Santa Anna, o hospital de doidos, e é posto a ferros." Fica sete anos em Santa Anna. Embora as crises periódicas, ele é deixado livre dentro hospital. "Por vezes ilustres e curiosos viajantes aparecem para visitá-lo, como Montaigne. Mas, basta saber que publicam Jerusalém Libertada em Veneza com o texto adulterado e é dominado por uma convulsão de fúria. Tinha uma loucura intermitente e "parcial", dizem os testemunhos. "Parcial", que bem descreve o caráter localizado das regiões da paranóia, uma espécie de ilha no centro do psiquismo geral. Os visitantes impressionam-se com a dignidade do seu trato, com a lucidez dos seus pensamentos. Tasso é libertado em 1586, volta a ter uma vida errante de cidade em cidade. Cada vez mais tétrico, atormentado e miserável. Manzó, descreve o seu estado nestes termos: ' ... a causa de sua doença... começou com vapores negros que lhe subiam ao cérebro, escureciam os espíritos cuja fonte lá se encontra e lhe enfraqueciam a memória e a visão. Uma vez dissipado tais vapores voltava a si mais ou menos como os epiléticos, de espírito tão livre como antes. Manzò afirma que viu Tasso conversar com um espírito: "Acredita num espírito que o guia e lhe revela verdades ocultas, ensina coisas que não são frutos das suas meditações." Só uma voz se ouvia, a de Tasso, e tão nobres eram os temas que ele, Manzò, nem se atreveu a interrompê-lo. Somos levados a pensar na frase que Baudelaire escreveu no prefácio das suas traduções de Edgar Allan Poe: "Na história literária há verdadeiras maldições..." O drama psíquico de Tasso parece ser o da paranóia, o da mania das grandezas e da perseguição. Dir-se-á que desenvolveu a doença (...) pelo necessário e pelo desejável. Mas há um outro ponto de vista: a revolta e a decadência de Tasso podem ver-se como as do poeta em si mesmo. (...) A perseguição do poeta pode ser real. Será, suponho eu, o que Goethe quis mostrar no drama Tasso. Para Tasso, a História é fonte de poesia, ao passo que a Poesia, devido ao mistério da sua própria natureza e por percorrer ao maravilhoso comporta e exalta o pano de fundo, os profundos segredos." Neste ponto, Jouve, faz um paralelo da loucura criadora com alguns personagens de Tasso. Cito o resumo da história de Tancredo e Clorinda, feita por Jouvé no final do ensaio: ambos os personagens não param de matar-se e apaixonar-se outra vez um pelo outro. Clorinda é o desejo que atravanca o peito de Tancredo. Porém, o muito belo desenlace do drama dá-se quando ele acaba por matar Clorinda em combate sem a reconhecer. A famosa peça que mais tarde inspirou o o canto de Monteverdi, é passível de várias interpretações: ou é o combate secreto de Eros contra si próprio ou é o conflito da honra em estado puro, ou seja, da guerra com todos os valores humanos, entre eles o amor.
Anna & La Folie de Tasso na Vida Real e na Ficção Iª Parte
Retirado da Obra de Jouve: Folie et Génie: Tasso.

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