domingo, 14 de maio de 2006

Sarapalha & As Sutilezas Da Dor

Difícil escrever sobre este conto de Guimarães Rosa, pois o que fica após o término da leitura é uma dor indefinida pela «sorte» de dois personagens, além de um mal-estar existencial acompanhado daquela pergunta que sabemos não trará uma resposta para a sensação provocada pela narrativa roseana: o que no conto provocou-me essa indefinição onde um pensamento racional parece passar do lado de fora do que poderia ser dito? Então, por um instante, senti que a impossibilidade de escrever algo sobre Sarapalha, através de um discurso mais lógico e com certa pretensão de uma aproximação filosófica, era oriunda da forma como Rosa conduz «a dois passos antes» da narrativa aquilo que talvez ele chame de alquimia. Isto permite derivar que Rosa, talvez, utilizasse um «método» específico para provocar tais sensações em seus leitores ao construir suas narrativas com uma «dialética-própria», a dois passos antes do discurso e este, contudo, implícito e necessário em qualquer obra escrita pela presença mesma da linguagem. Assim, Sarapalha, soa como um profundo, mas sutilíssimo movimento de vida a envolver as personagens antes mesmo das palavras, da linguagem escrita, como se houvesse vida independente de linguagem. De outro modo, duas personagens que nada tendo de filosofia acabam mostrando a existência em sua multiplicidade de sofrimentos sem a filosofia em si e, no entanto, mostrando-a muito além do que a própria filosofia poderia fazê-lo, é o movimento do que poderia ser um mundo de reflexões filosóficas ou mais especificamente, existenciais, a mover-se dentro da simplicidade do viver e, mais além, pleno de tudo aquilo que é humano. Em outras palavras, há uma sutileza a envolver a dor da finitude_ da dor da proximidade da morte_ onde a filosofia, «passando ao lado», deixa para a vida mesma, em sua simplicidade, o que há de mais profundo. Para Rosa, o canto num rio sem margens conduz a dor do abandono a outros mais? É a dor do abandono em um rio sem margens que faz nascer outras dores? Se considerarmos o canto de abertura deste conto, nas palavras do escritor-poeta Alckmar, "a epígrafe acaba por sugerir antes mesmo da narrativa aquela beleza que circunda o canto, o canto da dor, da alegria e do pássaro"[1]. Rosa estaria assim representando pelo canto a multiplicidade de sofrimentos do ser humano, da dor do abandono do amor, da dor do abandono da própria vida que se esvai aos poucos, da dor da solidão, da dor do medo do silêncio, quem sabe se ele não vai morrer mesmo? Primo Argemiro tem medo do silêncio[2]-[3] E, junto ao canto e ao silêncio, outro «símbolo-roseano» surge: o rio permeia a vida das personagens com diferentes significados: das águas do rio vêm a proximidade da morte [a doença de ambos os primos]; o rio está associado ao amor infiel no canto repetido de uma estória sobre a infidelidade; no início Guimarães escreve: em abril quando passaram as chuvas, o rio — que não tem pressa e não tem margens porque cresce num dia mas leva mais de mês para minguar[4] — do rio que não tem pressa e não tem margens provém a vida e a morte? A vida sem pressa?, porque seu contrário nada alteraria? Sem margens, porque a vida não sendo previsível não permite a visibilidade de alguma possível margem onde se poderia aportar, não há margens, não há porto seguro, não há possibilidade de sair das águas, o rio torna-se metáfora tanto para o fluir da vida como para o fluir da morte iminente ou de qualquer outra forma de finitude. Outra representação nesse sentido seria o nome do Primo Ribeiro[5], o qual significa riacho, rio, ou seja, presença singular do rio na existência que flui como as águas de um rio dentro de um outro rio. Mas, a existência, como fios de água fina dentro de águas sem margens, acaba por encontrar o seu porto final longe de qualquer rio, acaba por finalizar-se no seu oposto, pois foi no mato todo enfeitado, tremendo também, que Rosa colocou a morte na fala do Primo Argemiro — "Mas, meu deus, como isso é bonito! Que lugar bonito p’r’a gente deitar no chão e se acabar!... [6] Era o mato todo enfeitado." O rio, a vida em si, dentro de outro rio, o real da singularidade da vida de cada um, encontra suas margens na beleza da natureza, no mato todo enfeitado, no lugar lindo para se acabar. Argemiro não mais precisará se perguntar: ir para onde? A sutileza das metáforas recorrentes através do canto da dor em distintos abandonos, daqueles vividos e daqueles ainda por vir, desvela-se nos versos iniciais como os fios de água fina, sutis, no entanto, canto visível, e, por outro lado, silencioso, talvez, imperceptível a muitos instantes do fluir da vida. [1] Palavras do Poeta-Escritor Alckmar Luiz dos Santos sobre a epígrafe de Sarapalha. [2] Sarapalha, In: Sagarana. p. 140. [3] "Mas eles ainda não tremem: frio mesmo frio vai ser d’aqui a pouco. Há mais de duas horas que estão ali sentados, em silêncio, como sempre. Porque, faz muito tempo, entra ano e sai ano, é toda manhã assim." [4] Id. p. 133. [5] A lembrança da amada que o deixou vem também associada às águas do rio: "— É... passa... passa... passa... Passam umas mulheres vestidas de cor de água, sem olhos na cara, para não terem de olhar a gente... só ela é que não passa, Primo Argemiro!... E eu já estou cansado de procurar, no meio das outras.... Não vem! ... oi, rio abaixo, com o outro... Foram p’r’os infernos!... " p. 147 [6] In: Sagarana. p. 154
sANdrA & O Encanto Inesperado com Sarapalha

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