quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Platão & Nietzsche

“O que teria sonhado o Tempo, que é, como todos os agoras, o ápice?”
Jorge Luis Borges. Alguém sonha. Platão e Nietzsche: o não-ser (outro) e a ‘diferença’ no não-conceito
by sandra fasolo
[ensaio não concluído] Aproximação entre a passagem X do Sofista e uma passagem de Nietzsche Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral. A intenção é mostrar que o texto de Nietzsche vem ao encontro da definição sobre o não-ser, estabelecida no Sofista, como sendo ‘outro’. Inicialmente um breve resumo de como Platão conduz o diálogo até chegar a estabelecer a realidade do não-ser e quais as duas principais razões que o levaram a colocar o não-ser como uma das formas supremas também estabelecidas no diálogo homônimo, a qual perpassa todas as outras formas. O discurso falso dos sofistas precisa ser provado em função da dialética mesma do filósofo em contraposição à erística do sofista, pois se tudo é verdadeiro não é necessário o mundo das formas e suas essências, também o verdadeiro filósofo e sua dialética não são necessários já que tudo se estabeleceria como verdadeiro a partir do ponto de vista dos sofistas. A relação do não-ser com o discurso falso vem desde Parmênides de Eléia pois os sofistas usam de forma falsa a ‘inexistência’ do não-ser para justificarem suas teses relativistas e dizer que então tudo é verdadeiro. Provando a realidade do não-ser como eidos Platão prova que existe a possibilidade do discurso falso. Entretanto o não-ser não significará o falso, pois isso seria admitir um eidos de falsidade entre as formas o que implicaria em admitir falsidade naquilo que era até então perfeito e imutável. O não-ser será explicado então por meio da desordenação do pensamento quando da apreensão das formas, as quais geram o discurso falso no sensível, mas ele em si mesmo não é o falso, representa o 'diferente' ou o Outro como Platao chega a definir o não-ser no diálogo Sofsta. Feito isto, o diálogo transcorrerá com derivações sobre as formas supremas em relação a outras coisas, como ocorre com a linguagem na passagem em que Platão fala sobre o nome e o verbo, diz ele: [...] Nos dois exemplos dados: Teeteto voa e Teeteto está sentado, Marques observa que em ambos o uso das formas não se faz necessário, pois é evidente através dos sentidos, vemos Teeteto sentado, e sabemos que Teeteto não pode voar, o que significa dizer que para coisas ‘concretas’ o uso da forma não se faz necessário como se dá com as formas de valores, as formas abstratas as quais pressupõem o pensamento para ascender até elas por meio da ciência suprema do filósofo: a dialética. Desse modo, a dialética não seria necessária para vermos que Teeteto está sentado, contudo precisamos da linguagem para observar isto e fazermos o diálogo da alma consigo mesma e o diálogo exteriorizado que é a fala. Nesse sentido, podemos compreender que embora as formas não sejam necessárias para tal percepção dada nos exemplos do Sofista, algo do inteligível se faz necessário para o ato de pensar o ‘evidente’ e para isto fica o pressuposto da linguagem. Se esta é fundada no inteligível é possível que da mesma maneira que o não-ser, perpasse todas as outras formas que possuem relação direta com o pensamento. Abordando Nietzsche, contrariamente a toda a crítica que o filósofo fez à tradição metafísica, pensamos haver aí uma concordância com Platão, pois na medida em que o conceito nega a diferença nega o outro e suas partes (não-ser) por outro lado é exatamente a elaboração de conceitos que o pensamento busca. Mas no caso de Platão ele buscou conceitos ou definições e relações das formas entre si e sua presença e participação no sensível. Em todos os casos é uma atividade do pensamento que busca conhecer e estabelecer limites, pois se conceituar não nos fornece o conhecimento das coisas que aí estão e além disso negam a diferença existente em cada uma a partir das suas semelhanças é preciso lembrar que em Platão a diferença é tão ser quanto o ser. A diairesis que percorre todo o diálogo ao lado da symploké, divisão e síntese, parte das semelhanças para depois ir para as diferenças, o não-ser estaria dessa forma presente no próprio método utilizado no Sofista. O não-ser permite pensar o outro na sua diferença e dizer aquilo que as coisas não são, entretanto este não-ser não está aí para dizer que é o falso, mas unicamente que o ser é isto e não a multiplicidade da realidade_ inteligível ou sensível. Pois afirmar que o não-ser é o não-mesmo não é a mesma coisa que afirmar que o não-ser diz o falso. Assim, mesmo que as formas não sejam necessárias para as coisas do sensível a linguagem o é para que possam ser ditas, é preciso que de alguma maneira ela perpasse todas as outras formas um dia ‘contempladas’ pela alma. Por outro lado, pode-se colocar a hipótese de que as formas são abstratas no inteligível sem a presença da linguagem, esta seria talvez criada pelo demiurgo para que o pensamento ou a alma pudessem apreender as Formas através do pensamento já que não estão, no sensível, disponíveis para tal contemplação. Quem sabe uma dialética dentro das formas que também tem por fim a diairesis? A divisão do próprio pensamento que se fragmenta para apreender a perfeição do inteligível, a síntese que só pode ser dada por um retorno às Formas em sua ‘forma pura’ como um dia foram contempladas. A definição buscada por Platão e os conceitos as quais Nietzsche levanta suas críticas, teriam assim um ponto em comum, embora tantas outras discordâncias, este ponto cego digamos assim, seria para Platão a não possibilidade de intuir a linguagem diretamente das formas, deveriam ser mediadas pelo pensamento e aí então a presença da linguagem. Em Nietzsche, este ponto é a critica contra a ausência do diferente, do outro, dada pelos conceitos que aniquilam o singular que existe em cada "coisa" ainda que todas possam ser conceituadas com os mesmos termos e as mesmas premissas. Ainda que isto se dê para este filósofo num plano essencialmente fenomênico e de uma linguagem constituída por um 'batalhão móvel de metáforas' [na verdade isso se aproxima ao discurso de Hermógenes no Crátilo] então, não sendo necessário o conceituar a que Nietzsche se refere permite pensar somente aquilo que as coisas são, generalização que coloca de lado o ‘outro’ em função da arbiritrariedade de uma linguagem convencional ou nas palavras de Nietzsche, antropomorfizada, a qual nada tem a ver com uma ontologia realista, no entanto, sob um ponto de vista do ‘outro’ pensamos haver aí um ponto em comum, tanto Nietzsche quanto Platão se mostram a favor em respeitar o outro, embora Platão se refira antes de mais nada ao outro-lógico-ontológico e Nietzsche ao ‘outro’ (diferença) fenomênico, a ontologia de Platão se reflete no sensível, o ponto de não-acordo é sem dúvida a gênese das palavras ao lado do princípio de todas as coisas. De resto, respondendo a pergunta borgeana, epígrafe deste texto, através do próprio Borges, o Tempo ‘sonhou os gregos e a dúvida’, enfim...

Anna K. & a tentativa insana de aproximar Platão de Nietzsche_ Assim, o tempo sonhou Platão e sonhou Nietzsche para que metafísicos e não-metafísicos pudessem às vezes se encontrar, embora em tempos distantes, ainda que mesmo Tempo. Nietzsche estaria muito provavelmente criticando Kant e a representação, pois para que esta se dê é necessário uma linguagem que se une para elaborar um conceito, algo conhecido é re-presentado, trazido novamente como presença através dos conceitos o que desconsideraria a diferença. Quanto a Platão, o pensamento que elabora definições (conceitos?) tem sua origem numa diferença ontológica-realista que também se mostrará na realidade sensível e que, contudo, era usada pelos sofistas para tornar o não-ser (outro) um outro que não corresponderia ao ontológico, mas antes puramente à própria arte da sofística. Poderíamos dizer que os idealistas estão para os sofistas como Platão está para o Tempo de Borges, tendo em vista que Alguém Sonha, sempre.

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