terça-feira, 18 de outubro de 2005

Quem poderá saber?

Primeiro acreditei na filosofia como literatura, despertava minhas manias, alimentava-as e eu gostava dessa sensação, desse prazer um pouco mágico, um pouco alucinante, um pouco de não-mundo real. Quis continuar pensando em toda a história da filosofia como se fosse uma maravilhosa história literária, um complô universal de invenção de delirantes fábulas, isso era eu, até que descobri Vaihinger, já defendera isto: a história do como se fosse_ inspiração em Kant, olhar para as coisas como se elas fossem outras que aquelas que vemos. Os textos abstratos da filosofia possibilitam ao pensamento ser mutante, além do que já é, pois a cada vez que se lê um mesmo § nossos pensamentos se movem de forma diferente, talvez porque se movam seguindo nossa própria natureza: não-sermos os mesmos é desejar estar sempre adiante. O presente é o adiante do que já caiu na finitude. Tudo serve para muita inspiração, a mesma frase nunca é a mesma dependendo de como irá se mover nosso pensamento e as associações, recortes, como estamos sentindo as coisas e as pessoas em dado instante, tudo participa para se ler como se não tivéssemos lido tal página, tal obra, tal autor_ porque como se, não fossemos nós. Depois a filosofia passou a ser meu pharmakon particular, penso que isso acontece embora em níveis diferentes para cada um; depois do depois, uma estranha e definitiva armadilha, é quando se atravessa uma certa porta que se fecha às nossas costas e não possuímos mais a possibilidade de retorno. Continuando por caminhos do como se: lembro aqui o mito da caverna de Platão na qual, após se ter saído uma primeira vez, existe a possibilidade de voltar para ajudar os outros que lá continuam vivendo nas sombras [ou até por simples curiosidade, um auto-teste, digamos assim]. Mas o retornar não permite a sensação de sermos os mesmos: o rio de Heráclito correndo por entre as pedras do interior da caverna nos fornece esta certeza, mas somente porque saímos e agora estamos de volta_ como se, de repente, nos fosse dado o direito de perceber o rio de Heráclito. Estas águas, no entanto, nada podem representar para aqueles que nunca viram a ‘luz do sol’, elas só são visíveis por um outro olhar, é num outro contemplar que reside seu sentido_ é também a porta da qual falava antes, aquela que se trava assim que passamos e que por ser a própria filosofia representa a liberdade de pensar. No seu extremo, toda sedução tem seu oposto, toda liberdade encerra em si mesma no seu outro extremo uma prisão. É quando se pretende 'voltar' e ouvimos o som da porta se fechando. Tarde demais. À diferença das sombras de Platão, a filosofia torna-se um deixar-se ‘levar-se’ consigo próprio_ o tempo todo_ as sombras, um viver, simplesmente. Mas a porta se fechou, lembremos disso e as sombras são então passado. A caverna de Platão permite realmente um ir e vir sem perdas? Talvez não. Como se aquelas coisas simples da vida, a vida que passa no seu fluir constante, silencioso e em sua quietude, acabasse se tornando velada e isso constitui uma parte valiosa do que nos cerca no mundo, constitui o outro lado, de águas que correm, mas que já não nos é dado vê-las, porque então só desejamos ver o puro pensar. Situação invertida, preço a ser pago: podemos ver as águas ao retornar para a caverna, águas que os ‘prisioneiros’ não vêem, porém, a luz do sol traz consigo um outro rio, as águas não são as mesmas lá fora_ eis a perda do ir, do sair, do avançar, do julgar-se fora da ‘prisão’. A perda: mesmice da vida não mais suportável ou não mais percebida_ e uma parcela do que fomos inicialmente [afinal todos estávamos lá, não estávamos? dentro da caverna] é a versão dos esquecidos, mas não fomos todos um dia, esquecidos? Ou há os que já nascem fora das sombras? Sob a luz do sol sem terem conhecido em primeira mão, a penumbra? É em outras palavras, a versão ‘dos que ficam’, mas não tivemos também este tempo em nossas vidas? Não houve dias em que ‘ficamos’? Afinal, não é e não foi esse o caminho? Contato inicial com a existência e depois colocado de lado como se nunca, nunca, tivéssemos estado lá. Uma pequena parte de nossa existência jogada fora porque junto com o som de passos ansiosos, o ir sempre em e para frente, está a porta que se fecha junto com tais passos, quando ignoramos: não precisaríamos ir com tanta pressa. Não deveríamos quem sabe sermos mais lentos? A porta não mais abrirá para um possível querer voltar. E se as sombras são o passado relegado, o puro viver pela espontaneidade se converte em perda_ sim, muito de nós ficará perdido, lá, entre as sombras que agora nos vangloriamos de abandonar a cada pensamento. Uma parte de nós perdida como lágrimas na chuva[1]. E quem sabe de que águas essa chuva? No Fédon, Platão diz: “os homens não sabem que os verdadeiros filósofos trabalham durante toda sua vida na preparação de sua morte . . .” a perda, a morte de Sócrates, traz de volta o sonho de Platão abandonado e ao qual ele retorna, pois escrever os diálogos foi para Platão um abandono da oralidade ensinada por Sócrates e um retorno para antigas águas: o seu talento de escritor-poeta-filósofo. Talvez, Platão, já tivesse atravessado a tal porta, aquela que se fechou junto com seus passos antes mesmo que Sócrates bebesse a cicuta, trancada muito provavelmente pelas mãos do próprio Sócrates. Platão já não pode retornar completamente e não pode não avançar. Então, onde Platão desejou realmente permanecer? Quem poderá saber de que mãos estes passos? Talvez houvesse ali muito mais imaginação que o julgado verdadeiramente ‘real’, antes desconhecido. O prisioneiro inventava na visão de suas sombras as imagens que precisava e desejava. Inventar perderá pois seu sentido, a certeza das águas e a certeza do mundo à luz do sol, perda do imaginário, também a perda do puro e simples viver em troca da episteme. E quem poderá saber de que sombras esse sol? 06 março 2003

Quanto de episteme há no imaginário? Quanto de imaginário há na episteme? Talvez dê para fazer uma analogia do imaginário (imagens) do poeta com as sombras. Se de um lado isso se aproxima à doxa, e até aos sofistas, de outro, é como se condenasse o pensamento a não mais imaginar, mas puramente pensar. Só que o pensamento também usa imagens, ainda que como ponto de partida ou de chegada... a teoria da reminiscência não traz em si ‘imagens’ do que um dia a alma contemplou? Como saber o que foi ‘visto’? Se conhecer é relembrar, talvez as imagens tenham algum status positivo dentro da ontologia de Platão. [1] Referência à bela cena do filme Blade Runner em que o replicante Roy está morrendo, a cena se passa em meio à chuva, à escuridão de um mundo que não mais possui a luz do sol no alto de um prédio decadente. Roy, tem em uma de suas mãos o símbolo da paz: uma pomba branca que é solta quando ele diz: 'hora de... morrer'. E, 'muitas coisas ficarão perdidas como lágrimas na chuva'.

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