terça-feira, 4 de outubro de 2005

O filosofar pela Admiração_ tháumas

Esse discurso de admiração é antigo, mas, vamos lá...
Platão e Aristóteles "viram" na admiração o impulso inicial de todo o filosofar. A admiração leva à consciência de uma parte de não-saber surgindo assim o perguntar e como conseqüência o conhecer_em parte_ daquilo pelo qual nos admiramos/perguntamos. Tháumas, estranhamento, o jeito como se olha para as coisas, primeiro passo para se sentir-filosofia. É a percepção do nascimento deste "olhar-outro" dentro de nós. Este processo interno conduz à reflexão. Mas por que a admiração se converte no primeiro passo para se filosofar? Talvez porque junto com ela venham os ‘por quê's’ e estes pertencem ao filosofar. Foi isto que a Ciência Primeira tentou buscar, desde o seu início com os pré-socráticos, desde de Tales, ou antes ainda com os poetas Homero e Hesíodo: quis conhecer o último ‘por quê’ de tudo que há no mundo, o fundo último que viria tudo sustentar, unificar, ordenar e de onde tudo se originaria e se constituiria. Depois da admiração, depois dos ‘por quê's’ do pensamento, a linguagem em uma mediação realiza uma transição maior entre o ato de admirar, o pensar, o interrogar-se, sem a linguagem não seria possível uma percepção-reflexiva do admirar. A dialética está presente dentro do pensamento, o dialogar consigo mesmo seria o primeiro passo dialético que se abre através de perguntas e respostas processadas inicialmente dentro de mente em reflexões e graus de abstração cada vez mais altos, elevando o admirar igualmente para outros níveis de "espanto". Há uma dialética não só no pensar o próprio pensamento, dialética que se estabelece pela tríade: admirar, pensar por meio de pergunta-resposta-pergunta-resposta [continuamente] e novamente o admirar-se, agora num grau abstrativo-outro, mas também contínuo. A linguagem transformando o espanto em palavras. Mas tudo isto pressupõe perguntas e respostas: o que é o ato de perguntar? Perguntar ‘é uma operação mental que consiste em retomar o que se sabe e buscar o que não se sabe’. Só podemos perguntar sobre algo que conhecemos, por mínimo que seja? Algo que sabemos que existe ou que tenha passado pelo nosso pensamento, mesmo que isso tenha acontecido de forma vaga e imprecisa? O perguntar, por sua vez, pressupõe um processo dialético: perguntas e respostas originando-se numa "síntese" que é uma não-síntese, do contrário, o pensamento poderia "estancar" caso a resposta final tivesse sido encontrada ou aceita ou...a filosofia, apesar de buscar uma totalidade através de seus sistemas, não se constitui em verdades absolutas, ela é totalidade enquanto universal, mas não é totalidade enquanto conhecimento acabado. Então o que é um pensamento dialético? A dialética não é algo que se estende somente para questões de teorias filosóficas, mas sim, e antes de tudo, uma forma de conduzir o pensamento para tudo que vive em nós e ao nosso redor. Possuindo como referência o exemplo dado em aula, poderei inferir outras coisas desse processo. Exemplo fornecido: ‘um homem e uma mulher que geram uma criança, esta criança seria a síntese do amor dos dois’. O processo dialético aqui seria o resultante de duas outras pessoas, do relacionamento que as envolve. Mas, e quando este processo é interrompido? Ainda utilizando o exemplo, e se a criança não chega a nascer? Quando a síntese morre antes de ter nascido verdadeiramente? Quando fica pela metade e nunca saberemos o que teria sido, o que poderia ter sido? Sendo assim nem todo processo dialético dará necessariamente origem a uma síntese. Isto é, nem sempre vem a converter-se na síntese desejada. Se, por outro lado, aplicarmos este exemplo ao aspecto teórico, às abstrações - um novo jeito de olhar para o mundo, por exemplo - significaria que a dialética tem, a priori, condições para que se faça e se estabeleça num novo movimento de ser, de pensar o mundo, e, sendo assim, como saber o que deve preceder a dialética?, o que deve acompanhá-la?, pois ela pode não se dar como o desejado. E desejo de algo, segundo Aristóteles, não é nada mais do que o desejo de conhecer este algo. Pode-se deduzir, a partir disto, o que se estabelece como um novo movimento, um novo re-começo frente à existência, nem sempre chega a ser conhecido. Isto remete para a questão: como saber em que grau de conhecimento eu me encontro frente ao que se mostra? O que se pode fazer com algo que temos certeza: não teve o seu fim (fim enquanto início/nascimento) de um novo ser ou de um novo modo de pensar o mundo? Será que um filósofo que não consegue sistematizar seu pensamento, sente-se como alguém que perdeu algo que não chegou a conhecer?, ou um ser ainda não totalmente gerado? Sente-se como se tivesse morrido junto com este ser, visto que não nasceu verdadeiramente? O que é algo que não nasce verdadeiramente? E até que ponto podemos ter certeza dos conhecimento que chegam até nós?,
até que ponto sou aquilo que não se mostra para mim? Que relação existe então entre: admiração — filosofia — metafísica? Quando nos admiramos, perguntamos ‘Tí estí..?’, ou seja, ‘O que é...?’, queremos na verdade saber seu fundamento, sua essência, sua identidade, etc, a pergunta pressupõe uma definição, um conceito sobre o objeto que está em questão (não o objeto em si, mas o universal que este objeto representa; não o particular, não seu nome próprio). Na Metafísica, Aristóteles trata da teoria dos universais, em como dar uma definição sobre algo, que não se direcione para o particular de um indivíduo, uma cultura, um tempo, mas um definir conceitual que sirva para todos esses algos existentes no mundo. Aristóteles tenta sistematizar como fazer para se chegar em definições universais, o que é preciso para conseguir elaborar-se um tal conceito, o que é importante, o que é válido e o que deve ser conhecido: as causas. Começa o texto I da Metafísica, ligando todo o conhecimento ao desejo de conhecer: ‘todos os homens desejam naturalmente saber’, continua o pensamento dizendo que os sentidos, em especial o da visão, iniciam o ato de se conhecer alguma coisa. Mas quais as etapas para se chegar ao verdadeiro conhecimento?, visto que os outros são mais fáceis de serem adquiridos, mais ainda os sentidos por já nascermos com eles? A memória e a experiência concatenada (ligação ou associação de vários fatos, vivência não-fragmentada acumulada pela memória) fariam parte deste processo, pois a experiência armazenada na memória acaba por produzir juízos universais a respeito de uma classe de objetos - não de um objeto particular - a identidade e as diferenças do objeto que representam uma classe universal, também precisam ser definidas. A definição, portanto, é para Aristóteles uma parte do conhecimento. Mas como se chega a definir alguma coisa? Para Aristóteles a idéia de sapato, por exemplo, está em cada sapato que existe, a essência do objeto está nele próprio enquanto ser que existe. Para Aristóteles, conhecer algo é passar do particular para o universal, da experiência para a teoria, do nome próprio para uma classe, e só se chegaria a isto através do conhecimento das causas, princípios e porquês existentes dentro de cada classe de objetos de onde sairiam suas definições/conceitos universais. Dentro deste contexto, saber as causas conduziria ao verdadeiro conhecimento, cujo fim é a sabedoria/ abstrações/teorias, e estas coisas, as universais, seriam as mais difíceis de serem conhecidas por mais longe estarem de nossos sentidos - que visam quase sempre o particular de memórias e de experiências. A Ciência Primeira, a Filosofia, estaria acima de todas as outras, seria a mais universal, aquela que pode conhecer as causas das coisas, por que conhecer algo é conhecer suas causas. Mas o que é uma causa para Aristóteles? Se perguntar a causa significa perguntar o porquê de alguma coisa, este ‘porquê’ pode ser diferente e há, portanto, várias espécies de causas, já que no mundo existem várias coisas e, assim, vários ‘porquês’. Deveria, porém, existir uma hierarquia de causas, onde seria preciso buscar sempre a causa mais alta, segundo aquilo que se quer conhecer. [que papo chato esse, não é à toa que a maior parte dos seres humanos não curte filosofia, mas também, convenhamos... vou voltar para meu curso de Artes Plásticas]
Tudo gira em torno do desejo de conhecer e do espanto em admirar-se com algo do mundo, qualquer mundo possível. Pensando melhor, isso lembra um ser humano compulsivo em sua curiosidade-abstrativa, pois "desejo de" não remete necessariamente a uma atitude prática, admirar-se com, não parece remeter necessariamente a um pensar que com certeza absoluta irá "ver" mais alto. Já vi algumas pessoas desejando, admirando-se com... e isto levá-las em direção a muito passos atrás de onde se encontravam convencidas do contrário. Completamente convencidas do contrário. Deve ser quando há algum equívoco no seu pensar ou em seus desejos, ou nas causas ou ainda numa dialética invertida. Ah, mas isso não explico, não, a dialética invertida é o meu segredo, é o meu olhar de espanto sobre os atos das pessoas, é aí que meus olhos vêem no escuro. Desculpem, morrerá comigo. Só contaria para quem têm olhos que vêem no escuro, mas como este alguém não precisaria de nada disso... fico com meu coringa na manga.
1998_ como o tempo passa... Anna Karenina & os passos dados no escuro com o mesmo desejo de sempre, porém com sua dialética invertida-em-secretos-funcionamentos.

0 Comentários:

Postar um comentário

Links para esta postagem:

Criar um link

<< Página inicial