sábado, 3 de setembro de 2005

O logos de Heráclito & Goethe

Fragmentos que falam sobre os contrários ou opostos: 10. Articulações: inteiros- não inteiros, concorde-discorde, consonante-dissonante, e de tudo um, e de um, tudo. - c. IV 4; VI 1. (Ps. - Aristóteles, De mundo 5 396b 7) 49a. Para dentro dos mesmos rios descemos e não descemos; somos e não somos. (Heraclitus, Allegoriae 24) 54. A harmonia invisível é superior à visível. - c. V 3. 62. (Sustenta também que, de modo idêntico, o imortal é mortal, e o mortal, imortal, dizendo assim:) Imortais-mortais, mortais-imortais: a vida destes é a morte daqueles e a vida daqueles, a morte destes. 65. (Afirma ser o fogo dotado de razão e ser causa do governo do universo; chama-o:) indigência-fartura, . 67. O deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome. Varia como o fogo, o qual ateado a especiarias, é denominado conforme o perfume destas. - c. VI 3; VII 1. 88. É uma e a mesma coisa: o vivo e o morto, o acordado e o adormecido, o jovem e o idoso; pois, pela conversão, isso é aquilo, e aquilo, convertendo-se por sua vez, é isso. (Idem, Consolatio ad Apollonium 10) 102. Para a divindade, tudo é belo, bom e justo; foram os homens que tiveram umas coisas por justas e outras por injustas. - c. VI 4; VII 4,8 gh. (Porphyrius, Quaestiones Homericae ad Ilíaden IV 4) 111. A moléstia torna apreciável e boa a saúde; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso. - c. VII 4. (Idem, 1. C. 177) 126. As coisas frias tornam-se quentes; o quente, frio; o úmido, seco; o árido umedece-se, (Idem, Scholia ad Exegesin Ilíados, p. 126) Heráclito escreveu, em vários de seus fragmentos, sobre os contrários que existem no universo e no homem. A primeira vez que li, de forma brilhante esta questão, que a princípio parece ser tão simples, foi em um escritor alemão chamado Goethe. Goethe imortalizou-se através de duas obras principais: ‘Fausto’ e ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther’. Mais tarde, lendo Heráclito, percebi o quanto a teoria da polaridade goethiana também estava presente em seus escritos. Quem se inspirara em quem? Goethe, provavelmente, inspirara-se em Heráclito. Então, sempre que ouço falar em algum deles penso no quanto existe em comum no que escreveram. Pode-se dizer que para Goethe e Heráclito o que existe é a polaridade e não o dualismo. O dualismo separa, divide, aqui preto, ali branco; a polaridade, ao contrário, significa a oposição extrema de algo que ainda assim não se pode separar, significa que os dois pólos: o pólo positivo e o negativo precisam existir para que o todo exista, para que haja unidade. Por exemplo: a eletricidade necessita do pólo positivo e do negativo para que haja uma perfeita corrente elétrica e de origem a luz. Em relação a felicidade: ‘eu desejaria ser sempre uma pessoa infinitamente feliz. É um desejo insensato e impossível, tois só se pode ser feliz por pequenos lapsos ou momentos, pois se o fôssemos sempre ou por toda a vida nunca o teríamos sido. Só pela infelicidade se percebe a felicidade’ e inversamente. Tudo no mundo estaria condicionado a uma polaridade: amor/ódio, vida/morte, alegria/tristeza, doença/saúde, guerra/paz, bem/mal, dia/noite, doença/saúde, fraco/forte, verdade/falsidade, respiração: sístole/diástole. Diante da ausência de um dos pólos o outro pode existir. Como se cada um tivesse seu próprio tempo para mostrar-se mesmo existindo de forma oculta. Goethe escreveu sobre a polaridade fundamental da vida do homem, a polaridade que nos faz viver a cada segundo: ‘Duas espécies de bens completam a respiração A inspiração que comprime A expiração que alivia Rende, portanto, graças a Deus Quando te oprime e agradece, também, quando depois, mais tarde, te liberta’ Neste poema de Goethe, escrito na obra ‘Divã Oriental e Ocidental’, podemos perceber a ação dos dois pólos contrários da respiração: a inspiração e a expiração, agindo para nos conceder o todo desta polaridade que é a vida. Esses contrários têm, portanto, movimento, que ora concedem a vida a um e ora concedem a vida ao outro. É na ausência de um deles que o outro se forma. Seria, talvez, o princípio da unidade ou da existência, presente também em Heráclito, pois caso um deles não existisse o outro também não existiria em harmonia, como encontra-se expresso no seguinte fragmento, 88. É uma e a mesma coisa: o vivo e o morto, o acordado e o adormecido, o jovem e o idoso; pois, pela conversão, isso é aquilo, e aquilo, convertendo-se por sua vez, é isso. (Idem, Consolatio ad Apollonium 10)

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