sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Primeiro Projeto do Mestrado em Filosofia Antiga

O Não-Ser na Teoria das Idéias de Platão como pressuposto de sustentação da Dialética Ascendente by sandra fasolo 2. Objetivo da Pesquisa: Verificar a importância do Não-Ser e sua relação com o Ser_portanto com seu oposto_ pressupondo a probabilidade da existência de uma função relevante do Não-Ser na Teoria das Idéias Platônicas como se o mesmo fosse necessário para a percepção da Dialética Ascendente, sem o qual esta não seria percebida. Situa-se o problema de pesquisa a partir de uma abordagem Ontológica da Teoria das Idéias de Platão, tendo como referencial teórico os Diálogos Platônicos, principalmente o Fédon e o Sofista. 3. Justificativa do Problema de Pesquisa: Justifica-se a pesquisa considerando que a questão da mediação entre as Idéias Puras e o Sensível converte-se num ponto básico para toda e qualquer fundamentação teórica da Filosofia Platônica. [...] Pressuposto geral: De que as questões a seguir sobre o Não-Ser em Platão e sua relação com o Inteligível e o Sensível, portanto com a Teoria das Idéias, possam ser consideradas como um pressuposto ou hipótese de que é exatamente a partir do Não-Ser que a Dialética Ascendente se torna perceptível. Não-Ser como doxa, como falta, como in-suficiência. Quando o homem percebe que vive imerso na doxa (passa a ter consciência do Não-Ser) em relação ao seu oposto, a episteme, inicia o intelecto num processo definido como Dialética Ascendente, a qual conduz o pensamento para as essências eternas e imutáveis_mesmo que somente em parte, visto que o conhecimento se dá por participação. Pretende-se investigar o pressuposto de que a doxa se torna um primeiro 'mundo' como um suporte, uma base, digamos assim, que até mesmo justificaria a existência do Inteligível, pois do contrário, que sentido haveria no processo dialético? Sequer, talvez, haveria sentido na existência do Sensível_ caso este fosse constituído de Forma Perfeita como o Inteligível. A intenção não é, de forma alguma, fazer uma apologia à im-perfeição que reside no Sensível, nem tampouco chegar à construção de argumentos conformistas quanto ao fenomênico, mas chegar a investigar o Não-Ser e sua função dentro da teoria das idéias e qual seu papel frente ao intelecto do homem. Justificar o Não-Ser (ou a In-suficiência ou a Falta de uma Perfeição das Idéias Puras no Sensível) é pressupor que a Dialética Ascendente se mantém através daquelas coisas que ainda não-são_ mas que podem vir-a-ser através de degraus de conhecimento e do puro pensar abstrato, degraus dados, principalmente, pela dialética que tornando o pensar como algo que está sendo, portanto, movimento do presente, devir do agora, permite uma proximidade com o mundo que Platão colocou como sendo o fundamento de tudo que existe, de tudo que É e que Sendo continuamente torna-se mais próximo das Idéias Puras. Se quer dizer, dessa forma, que o Não-Ser tem um papel ímpar em todo esse processo de conhecimento e aproximação com o verdadeiro mundo: o inteligível, de onde tudo parte, mas acessado somente a partir do momento em que o homem percebe que a existência do Não-Ser precisa ser autosuperada dentro de si próprio. 4. Metodologia a ser utilizada: O estudo de Filosofia requer um Método de Interpretação através das obras do próprio autor, no caso de Platão e seus predecessores, principalmente Heráclito, Parmênides e Pitágoras que influenciaram o pensamento de Platão, bem como de Sócrates. A Pesquisa será qualitativa e o método será hermenêutico e bibliográfico_ considerando neste item os especialistas em Platão. Justifica-se a metodologia a ser empregada: qualitativa, porque a natureza do problema implica uma compreensão interpretativa e própria das pesquisas realizadas nas Ciências Sociais e Humanas. Razão esta que entende que um trabalho filosófico jamais poderia se ater a um método positivista e quantitativo, próprio para Ciências Exatas, pois tal método não poderia fornecer fundamentação para áreas do pensamento humano, visto que viria a reduzir a Filosofia somente a fatos encadeados e empíricos, descritos literalmente e excluindo assim o espaço inerente a questões filosóficas que a crítica interna torna possível, principal característica do método hermenêutico_ de compreensão das entrelinhas, além do literal. Envolver as ações humanas que constituem no ‘o que aconteceu’ historicamente ressalta um aspecto capaz de contextualizar qualquer assunto a ser investigado, mas descobrir ‘o porque do que aconteceu filosoficamente’ requer e reflete uma abordagem hermenêutica para o estudo filosófico. Deduz-se, assim, que o significado de uma determinada parte de um texto, de uma palavra, de uma sentença, de uma idéia filosófica, adquira uma compreensão da totalidade do pensamento de determinado filósofo bem como de associações que se possa chegar a pensar. Sendo a Pesquisa teórica e qualitativa e utilizando-se o método hermenêutico e bibliográfico, trabalhar-se-á com revisão de literatura especializada, seleção, análise e crítica de material já escrito pelos especialistas e comentaristas, além das obras clássicas dos pensadores já mencionados anteriormente. Pressupor a compreensão da teorização, isto é, do valor, a priori, da teoria, tem a ver com a forma pela qual se vai procurar respostas a serem fundamentadas num processo hermenêutico em função da questão, ou melhor seria dizer, das questões levantada em função do Não-Ser em Platão e de suas inúmeras formas de virem a ser compreendidas. Os conceitos a serem definidos serão, necessariamente, aqueles que Platão utilizou em suas obras e segundo os significados que lhes foram atribuídos por ele mesmo e pelos especialistas de seu pensamento. Considera-se, por exemplo, o conceito de Metafísica o qual possui diferentes definições conforme se refira a este ou aquele pensador, isto não quer dizer que se excluirá o que não está convencionado na tradição clássica no que se refere ao Realismo em Platão, pois como foi dito no parágrafo anterior a hermenêutica pressupõe a compreensão do próprio pesquisador. Reconhece-se a importância de se estudar todo o processo filosófico a partir dos antecessores de Platão, ou seja, dos Pré-Socráticos, porém devido a complexidade e abrangência é preciso delimitar entre a esmagadora fonte de dados e informações o ponto de partida a ser investigado, sem que se recaia em uma generalização extremada que tal procedimento muito amplo suscitaria. Dentro disso, o problema de pesquisa ficará mais delimitado em relação ao pensamento platônico, embora se pretenda um estudo dos Pré-Socráticos, tendo em vista que não se pode desconsiderar a fundamentação filosófica que estruturou o pensamento filosófico anterior a Platão. Pois foi ele enormemente influenciado pelos que o precederam. 5. Referencial teórico: Como principais referenciais teóricos coloca-se os Diálogos Fédon e o Sofista, além de uma leitura da República, do Banquete, Fedro e Teeteto por serem obras importantes para o aprofundamento do pensamento de Platão. As demais obras a serem utilizadas constarão de obras de especialistas e comentaristas sobre o autor bem como na bibliografia a ser revisada e analisada dentro da área de Filosofia Antiga, torna-se precipitado estabelecer quais serão utilizadas com maior relevância, pois ao longo da pesquisa, podem ser incluídas diversas publicações. O uso de dicionários especializados na área filosófica será também utilizado. Pretende-se ler em espanhol e francês e um estudo básico de grego. A verificação antecipada sobre qual a linha que determinado autor segue é extremamente necessária para compreendermos se a análise é tendenciosa de forma a ser reducionista quanto ao pensamento platônico ou se ao contrário cai em exageros e elucubrações sobre um subtexto que não poderia nunca estar em Platão. Por isso, as fontes a serem consultadas precisam ser, antes de tudo, de um nível confiável e digno das obras platônicas para a credibilidade de informações que podem contribuir para uma melhor estruturação do texto. Contextualizar a obra e o pensador na época histórica e nos acontecimentos da cultura a que pertenceu é outro intem relevante para a compreensão. 6. Definições de termos filosóficos: (a partir de dicionários especializados da área de filosofia: dialética ascendente / opostos / contrários / ser / não-ser / teoria das idéias/ formas puras / simulacros / participação / mediação / mundo inteligível / mundo sensível / entidades matemáticas / episteme/ doxa / ontologia / teoria da reminiscência / mitos / analogias / essências eternas e imutáveis / imitação / realismo platônico / exemplos concretos / movimento / ordenação / repouso / diferença / Bem / sofistas / unidade etc ) 7. Obras a serem consultadas: (...) Justificação do problema de pesquisa: O Não-Ser na Teoria das Idéias de Platão como pressuposto de sustentação da Dialética Ascendente_ o que segue tem o propósito de expor de forma genérica a Teoria das Idéias de Platão para melhor situar as questões sobre o Não-Ser, sua ligação com o Mundo Inteligível e o Mundo Sensível. Diz-se genérica, pois se fosse detalhadamente tal pesquisa não se faria necessária. Sabe-se, segundo David Ross, um dos maiores especialistas em Platão, que o Diálogo Fédon contém a Teoria das Idéias com uma abordagem diferente em relação aos diálogos anteriores, desenvolvido com maior delimitação e profundidade onde toda a obra discorre sobre o assunto. Considerando esta observação de Ross e para melhor expor o objeto de pesquisa o texto a seguir tem o intuito de uma breve explicação decorrente de questões que envolvem o Não-Ser no pensamento platônico. Sobre a Teoria das Idéias: Ross dia que ‘a primeira passagem em que é mencionada a Teoria das Idéias, apenas diz que não se pode conhecer algo através dos sentidos, mas pelo puro pensamento.’ Isto significaria um abstrair-se dos próprios sentidos e uma aproximação da verdade das Idéias Puras pelo pensar abstrato através de degraus de conhecimento. De forma resumida podemos dizer que a teoria platônica é constituída de: dois mundos (Inteligível e Sensível); a participação das essências puras através de mediações no Sensível; a mediação entre o Bem e Demiurgo e Demiurgo e o Sensível; degraus da Dialética Ascendente que incluem diversas formas de mediação; teoria da reminiscência, que de certa forma, é também uma mediação (da doxa_ obejtos sensíveis, crença_ para a episteme_ objetos matemáticos:dianóis e idéias: dialética (nôesis)_ e o Homem vivendo num mundo em que as coisas se dão pela mediação e participação das essências perfeitas onde o Não-Ser também reside. É evidente que Platão procurava a essência das coisas em seus dialógos (o que é o Bem em Si mesmo? O que é o Justo? etc) porém Platão não demonstra realmente o que são as coisas em si mesmas e embora o intelecto seja tido como o único que poderia ascender à teoria das idéias por meio do pensar abstrato, os diálogos não concluem com uma resposta definitiva ou categórica, não há uma síntese no final dos textos platônicos como se pudessem seguir da mesma forma como iniciaram: uma pergunta que remete uma resposta que está implicita na pergunta-afirmativa, uma resposta dada em função da pergunta. Em outras palavras o personagem-Sócrates-Platão induz o interlocutor à uma resposta, no entanto, a resposta dada já não é satisfatória, outra pergunta, outra resposta, e assim sucessivamente o que pressupõe que o principal nesse processo seja a busca constante de conceitos (coisa-em-si) como um desenvolvimento do intelecto e das abstrações e não propriamente de uma síntese, talvez porque encontrá-la seria uma contradição: seria o mesmo que Ter acesso às Idéias Puras, coisa impossível considerando que no sensível só estão em parte_participação_ e não poderiam nunca ser encontradas em sua ‘totalidade’ ou unidade de perfeição. Se pensarmos além de tudo que o pensamento do homem reside num mundo de im-perfeição como pode ele pensar que terá acesso a tais idéias do inteligível como elas realmente são? Platão dirá: a teoria da reminiscênica e a dialética conduzem o homem por uma via de conhecimentos sem que possa se equivocar. E poderemos perguntar a ele: mas se o homem contemplou um dia as essências verdadeiras qual o sentido de vivê-las de forma im-perfeita e por partes quando num dado momento foi dado a ele o direito de contemplá-las em sua unidade ou totalidade? Isto implica em determinismo, teríamos que supor que se todos contemplaram as Idéias por que alguns lembrariam mais do que outros? Pela intelectualidade, dirá Platão. Uma intelectualidade que parte, ainda assim, de sua realidade fenomênica, é desenvolvida através do puro pensar. Ainda que possa haver a superação da doxa o pensar do homem reside no sensível, ele não está de forma alguma no Inteligível e enquanto não tiver saído completamente do sensível não pode pressupor que conheça inteiramente o mundo das idéias. A cada nova abstração é como se a anterior, já superada, fosse vista como doxa, a cada novo conhecimento seria como se o anterior virasse doxa, pois que superado como ainda poderia ser definido? Uma contínua superação do pensar. Assim: Qual a origem do Não-Ser dentro do pensamento do homem enquanto Ser que está no Sensível? É possível que o Não-Ser possa ser visto como um contínuo transpor em direção ao Inteligível? Se não é possível que o Não-Ser constitua uma espécie de vir-a-ser do pensamento_através da dialética_ como explicar que a doxa seja exatamente o ponto de partida da existência do homem fora do Inteligível e que não pode ser considerada ser já que é este ser que o homem deveria buscar? Como deixar de pressupor que o pensar que é ainda Não-Ser, não seja importante para a dialética ascendente e dessa forma para o processo de ascender às Idéias Puras, colocando-as simplesmente como ilusões? Se o Não-Ser parte do Sensível, ainda assim, se faz imprescindível para a percepção dos opostos sem os quais a dialética não seria possível, pois não haveria um ponto de referência_doxa, sensível, não-ser_ para ascender. Não se pode, portanto, desprezar a função daquelas coisas que mesmo não sendo Eternas e Imutáveis e Verdadeiras têm uma imprescindível função que conduz ao que verdadeiramente é , segundo a teoria de Platão. Mas como algo que É tão importante para a Dialética pode não estar no Inteligível como Forma? Como algo que existe no Sensível pode fazer parte da Dialética se não contém a participação de Idéias Puras? Se não parte do Inteligível, logo não é Idéia Pura, mas entra no processo de conhecimento, logo não poderia ser oriunda somente do sensível e se é como explicar que simplesmente Não-Seja_ visto que É imprescindível que Seja o que É para que do In-Justo se perceba o Justo e do Justo se possa distinguir o In-Justo? Se está pressupondo Não-Ser como doxa ou como um constante vir-a-ser ou ascender_ um pensamento que ainda não é episteme mas que todavia pode tornar-se, o que pressupõe também movimento do ser do homem enquanto pensamento que vai buscando o seu próprio pensar, superando a falta, a insuficiência (que também podemos chamar de doxa). Assim liga-se: doxa/não-ser ao vir-a-ser/superação da in-suficiência de algo de forma contínua. Qual a implicação dessa falta ou in-suficiência nas coisas que estão no sensível ou no próprio pensamento do homem? Se poderia argumentar: porque o homem somente pode participar das essências ou da idéia da coisa em si, nunca em sua totalidade. Mas então existe a in-suficiência, não-suficiência e portanto, não-ser, que não pode ser simplesmente explicado com a afirmação de que as coisas do Sensível são aparências e simulacros da verdade, pois não explica qual a importância daquilo que falta. Porque se tudo é apreendido por participação, esta falta ‘temporária’ não pode ser preenchida pelo Nada, então se dirá: é preenchido temporariamente pela doxa (opinião) até que o homem saia dela para a episteme (ciência) através da dialética e continuamente. Ora, esta só é possível por meio dos contrários ou opostos e o Não-Ser não é exatamente o oposto do Ser? E que existe sobretudo no Sensível? O que se quer pressupor é que o Não-Ser, independente de Ter sua origem no Inteligível ou somente no Sensível, sustenta_ em parte_ este devir, este movimento que precisa existir na dialética. Não se perceberia a episteme caso não existisse a doxa. Assim, as sombras de que Platão fala na República, no Mito da Caverna, tem uma importância ímpar para a existência do Inteligível, é graças as Sombras que se pode perceber as Essências Platônicas, se o homem não estivesse imerso, mesmo que temporariamente, em Sombras, estaria por consequência imerso desde já no Inteligível não havendo a necessidade de mediações para qualquer lugar que fosse, pois estaria vivendo na Perfeição das Idéias Puras e não faria sentido algum em Ter um mundo de Idéias Puras duplicado. Por exemplo: o in-justo não está também em devir em vir-a-ser como o justo? Todas essas coisas que fazem parte do mundo ‘in’ se originam de Idéias que partem do Não-Ser? Há uma Idéia do Não-Ser em si mesmo? O injusto tem sua existência como o justo, então como pode algo não-ser se existe tanto quanto seu lado oposto? E se o É somente no sensível não se pode excluir que sua existência é necessária para que se perceba o Justo em si mesmo, ainda que em parte. Poderia o In-justo ser uma existência somente para o sensível?, pois a teoria de Platão é Metafísica Realista: tudo parte do Inteligível e se assim não for se poderia pensar que como nem tudo parte do Inteligível não existem Idéias para tudo que está no Sensível, se elas não existem como Idéias não são nem ao menos simulacros, mas Platão afirma que o sensível é todo simulacro. De onde então partem ou se originam todas as coisas que fazem parte do Não-Ser que também habita o sensível? Como Patão explica isto: deve haver uma Forma para o in-justo e todas essas coisas ‘ins’. Se eu pensar em termos de opostos, como é todo o raciocínio dos diálogos platônicos, então parece lógico que poderia haver igualmente no Inteligível uma dualidade de dois mundos, de essências eternas. E que assim chegar a conhecer é relembrar os dois mundos, mas optar pelas essências do Bem_ o mundo do verdadeiro Ser e abstrair-se do Não-Ser. Por que se há uma dialética ascendente em oposição a uma descendente existe esse movimento de ir ou vir (ser e não-ser) que se dá no sensível, a ascendente seria a aproximação das essências originadas pelo Bem e a descendente um distanciamento deste e um aproximar-se das Ideías do Não-Ser. Platão não fala num dualismo do próprio mundo inteligível? Se tudo é assim, se o sensível é simulacro e vem de lá, por que e como ‘lá’ poderia ser diferente? Os sentidos devem ter também uma Idéia de Sentidos, uma Idéia que embora longe do Bem ainda assim é uma Idéia que se fará simulacro e participação de sentidos. Volta-se a questão de que independente de onde o Não-Ser se origina, ainda assim, é possível pressupor que o in-suficiente, que existe em todas as coisas e também no intelecto do homem, é algo que, de certa forma, mantém a Teoria das Idéias, logo, não seria necessário que existisse como idéia para que a sustentasse? 1. Se participo das Idéias acesso somente parte delas, apenas fragmentos, nunca sua totalidade ou ‘unidade’, assim terei in-suficiência de todas as coisas (não-suficiência não é a mesma coisa que o não-ser de algo?) 2. Este não-ser suficiente faria parte constante do sensível, quase uma condição para que algo seja em parte, por participação que remete ao raciocínio de que algo (belo, bom, bem, justo, etc) será sempre in-completo e im-perfeito no Sensível, pois é só no Inteligível que elas existem em perfeição e unidade de si mesmas. 3. A in-suficiência de algo seria o mesmo que o não-ser_ por outro lado, não haveria como ser totalmente Não-Ser, totalmente In-justa, totalmente ‘In’, pois também se daria por partes e seu outro lado de Ser Justa por participação remete a Ser sem o ser em totalidade e portanto com uma dose de não-ser_ de in-justa. Não-Ser totalmente ‘Sentidos’ e Não-Ser totalmente Inteligível, desde que se dá por partes. 4. Não-Ser nenhum dos dois totalmente, logo ser em parte o Ser e ser em parte o Não-Ser. A in-suficiência de in-justiça seria temporarimanete preenchida com o seu oposto e vice-versa. 5. O não-Ser remeteria ao Ser e o Ser remeteria ao Não-Ser? Assim como o ceticismo não se sustenta sem o Realismo (por que precisa de um oposto fora do fenomênico para cair em ceticismo, precisa de algo para contradizer e justificar o ser cético) o Não-Ser de certa forma precisaria existir para justificar o Ser e as Idéias Puras do Inteligível. Só na falta, na in-suficência se pode perceber a existência das Idéias. Então se o In-suficiente é considerado como Não-Ser, é uma espécie de Ser que remete ao verdadeiro Ser, portanto necessário para que toda a teoria se mantenha. Um exemplo simples para ilustrar isso: Eu gostaria de ser sempre e infinitamente feliz. É um desejo insensato e impossível, pois só se pode ser feliz por pequenos lapsos ou momentos, pois se o fôssemos sempre ou por toda a vida nunca o teríamos sido. Só pela infelicidade (não-ser) se percebe a felicidade (ser) e inversamente. Se a dialética joga com seus opostos não estaria tudo no mundo condicionado ao seu contrário: amor/ódio, vida/morte, alegria/tristeza, doença/saúde, guerra/paz, bem/mal, dia/noite, doença/saúde, fraco/forte, verdade/falsidade, respiração: sístole/diástole. Diante da ausência_ em parte_ de um dos pólos o outro existe. Os contrários teriam, portanto, movimento, na in-suficiência há o seu contrário. Os opostos se constituem como parte inseparável do pensamento, são necessários para a ordenação, estruturação e continuidade da existência humana, do cosmos, da natureza, enfim, da própria Metafísica de Platão que se reflete no pensamento do homem sábio que consegue perceber, intuir, pensar o abstrato mundo da dialética e assim ascender até as essências. O Realismo acaba por colocar os opostos na condição de ‘parte deste mundo’, mesmo que não tenham sua origem numa realidade metafísica e independente do pensamento do homem, pensar nos opostos dentro da filosofia platônica é pensar na dialética, é pensar que o nível mais distante das Idéias Puras, a doxa, ainda assim é necessária para justificar um movimento ou um vir-a-ser da realidade de um mundo em separado e que constitui o próprio pensamento do homem, movimento que vê na reflexão a própria mediação para o devir da existência. Se, no entanto, a relação se dá por mímeses, por imitação, talvez fosse mais coerente pensar que a constituição do mundo se desse através de um processo que partiria do sensível e não do Inteligível. E assim tem-se outro problema: onde estaria a imitação do In-justo? Do Não-Ser? As cópias imperfeitas do sensível aspiram à perfeição da essência imutável e eterna a qual lhe é correspondente, existe uma ‘falta’, uma ‘vontade’, digamos assim, de buscar a perfeição que não existe na participação de alguma coisa, pois a participação de alguma coisa significa que o eidos está no sensível apenas ‘em parte’e não totalmente. Essa ‘vontade’ talvez possa significar: consciência de ‘falta’, de que o Não_Ser de algo nos remetendo para essa falta nos faz continuar buscando e nesse sentido, mesmo que com uma dose de idealismo, poderia-se pressupor que o Não-Ser sustenta o movimento de ir_ da dialética, pois caso não existisse o In-Justo, o sensível seria perfeito como o Inteligível, seria como um espelho fiel das Idéias, mas segundo, Platão, não o É e portanto, mesmo o mundo ‘in’ tem sua importante atividade dentro da mediação dos dois mundos. Outro argumento para a importância do Não-Ser (enquanto aquilo que não É, ainda) é o fato de Platão, e depois Aristóteles, Ter falado sobre a falta, a qual pressupõe a in-suficiênica de algo. Por exemplo, em relação ao Amor pela Filosofia, grau mais elevado de Amor que o homem poderia chegar a sentir e onde Platão afirma haver falta, como se poderia esperar que não houvesse falta em todas as outras coisas que existem no sensível se exatamente aquela que se apresenta como o ponto mais alto da Dialética tal falta existe? Diz ele no diálogo Fedro, segundo Abbagnano: Platão distingue tantas formas do Amor quantas são as formas do Belo, a começar pela Beleza sensível e acabando pela beleza da sabedoria que é a mais alta de todas e cujo Amor, isto é, a Filsoofia, é, por isso, o mais nobre. E ainda que: o Fedro propõe-se precisamente a mostrar a via pela qual o Amor sensível pode tornar-se amor de sabedoria, isto é, dilosofia e o delírio erótico tornar-se uma virtude divina que afasta dos modos de vida usuais e empenha o homem na difícil procura dialética (Fedro, 265b). Aristóteles também reconhece no Amor aquele fundamento de necessidade, im-perfeição ou deficiência em que insistira Platào. Assim, o que é a filosofia platônica senão a essência (idéias) e a existência (sensível buscando tais idéais)? O Amor pela filosofia_ que se estendido para todas as outras coisas, leva a pressupor que é exatamente na in-suficiência ou falta que a dialética se sustenta, é nesse ainda não-ser totalmente sábio, que se percebe a ausência de uma não-unidade, de um não-acesso total de idéias puras, da participação e da não-perfeição do Sensível, pois É exatamente na im-perfeição da participação das idéias no sensível que reside o sentido do mundo sensível platônico; é exatamente no modo e no limite da mediação_por partes_ que o homem busca a Filosofia através do pensar abstrato. Sem o mundo do Não-Ser, das Sombras e da Im-perfeição condicionada pela participação das idéias não haveria porque razão haver o mundo sensível_ pois se este fosse perfeito como o inteligível, para quê existira? E para quê Filosofia? Seria a mesma coisa que o Nada_ perfeição remete ao Nada: nada mais a fazer, nada mais a pensar, nada mais a criar, nada mais a buscar, nada mais a escrever e, por fim, nada mais a dizer ontologica ou epistemologicamente. Questões que podem ser estudadas e relacionadas com o Não-Ser: 1. Seria possível abordar Platão sob um ponto de vista existencial? Que a existência_ distanciada das essências_ vivida também pelos sentidos com um outro Valor ou Ponto de Vista remeteria a uma consciência daquilo que faltando se busca, daquilo que Não-Sendo ampara o Ser e assim se distingue melhor do que verdadeiramente É? Por outro lado se tudo no sensível é simulacro o pensamento também o É_ em parte_ o puro pensar não seria igualmente um simulacro da I'deia do puro pensar em si mesmo que estaria no Inteligível? 2. A influência de Crátilo e da filosofia de Heráclito na elaboração da Idéias de Platão. A teoria da reminiscência implícita em 61 a. Fédon Quando na fala de Sócrates ele diz: ‘julguei que um poeta para ser verdadeiramente um poeta deve empregar mitos e não raciocínios’, em 61 b, como Platão concebia a idéia de mitos, como os utilizou em seus diálogos ( partindo do sensível através de analogias pretendia chegar ao inteligível_ o que pressupõe que ou Mundo Inteligível houvesse a Idéia de Mito ou que o Sensível tem seu ponto central para se chegar até as essências eternas e se há um precedente, não importando qual seja o primeiro então pode-se pressupor que o Não-Ser, partindo do Sensível ou do Inteligível, tem também sua importância. 1. Influências do Pitagorismo na Teoria das Idéias. 2. A diferença entre imitação e participação implicaria na forma como se daria a mediação entre os dois mundos e no realismo platônico? 3. A utilização de exemplos concretos, os quais não teriam o mesmo significado que exemplos de valores, estéticos, matemáticos, enfim, exemplos abstratos, dados somente pelo pensamento, para que servissem simplesmente de exemplos iniciais para que as pessoas comuns - os não-iniciados - começassem a compreender o que haveria de mais importante e realmente verdadeiro para Platão. 4. Como os contrários estariam presentes nas coisas? 5. Como pode alguma coisa não admitir seu contrário, já que precisa conservar-se em si mesma para continuar sendo o que é? 6. Segundo Ross, deve haver uma fundamentação que justifique a exclusão do contrário, como é o caso da alma, que não pode admitir a ‘mortalidade’. 7. Como se daria a mediação entre os dois mundos? 8. Qual o papel dos contrários nesta mediação? 9. Há um movimento dos contrários no sensível e também no inteligível? 10.Por que a alma do homem, o ser fundamental e único, teria que se equiparar com todas as outras coisas?, a teoria platônica não deveria ter como essência mais elevada a alma? Não é a alma a razão pela qual tudo se origina e existe? Não seria a alma, então, uma exceção, em toda a teoria platônica? Como o ser do homem seguiria os mesmos princípios de todas as outras coisas que constituem o mundo? Isto não seria reducionismo em relação à importância que há ou que deve haver na alma?, visto que é a única que se constitui do puro pensar? 11. E quando algo novo surgisse no sensível?, por exemplo, a lógica de Aristóteles, esta idéia já existiria desde ‘sempre’ no Inteligível?, poderia haver um surgir de novas essências? Ou já existia, porém não teria, ainda, ‘nascido’no pensamento de alguém?, ou ninguém havia ainda recordado este algo novo do sensível?, ou seria apenas uma variação imperfeita de alguma essência? 12. O que é a verdade e onde esta se situa para Platão? 13.Até que ponto posso chegar a conhecer algo se este algo, segundo Platão, encontra-se de forma distinta no mundo sensível e no inteligível? O que posso conhecer remete ao mundo sensível? O que posso pensar remete ao mundo inteligível? O que não posso conhecer verdadeiramente está no mundo inteligível e só posso aprender em parte? 14.Se só posso conhecer algo que não muda, que é imutável, o que podemos conhecer verdadeiramente? Por outro lado, nesta questão está implícito que a imutabilidade refere-se ao objeto a ser conhecido. Surge outra questão: preocupo-me com a imutabilidade do objeto, mas e a mutabilidade do ser que conhece o objeto posiciona o problema do conhecimento em uma outra dimensão, pois tanto sujeito cognoscente como objeto cognoscível não são imutáveis. Portanto, como posso ter certeza de que a medida que vou conhecendo o objeto, não estou eu, enquanto pesquisador, imerso numa mutabilidade do universo capaz de desviar o meu pensamento do ser-objeto que quero conhecer? E, mais ainda, como posso conhecer o meu próprio pensamento, se eu próprio me encontro em permanente devir e o objeto a ser conhecido, sendo o meu próprio pensamento, está ou é este mesmo devir? 15. ‘Cada vez que Platão tem que explicar algo essencial (as idéias, o amor, o belo...) recorre a um mito como filosofia no limite de suas possibilidades. O mito não traz verdades, mas verossimilhanças.’ Algo verossímil é algo que pode ser, algo possível ou que parece ser_ e que tem a ver com a realidade, não?_portanto com o sensível. Como Platão pode fundamentar suas teorias a partir do sensível ou ainda de um algo ficcional que ‘pode ser’, não seria um simulacro do simulacro do simulacro? 3 vezes mais longe da dialética ascendente? Pois, primeiro simulacro: realidade de onde parte o mito; segundo simulacro: ficção criada na mente ou no imaginário de alguém; terceiro simulacro: palavras que acabam construindo o mito e associando-o à filosofia de Platão, dando uma certa unidade. 16.No Sofista a questão dos simulacros é amplamente colocada, principalmente devido a atividade docente que os sofistas exerciam na época, qual seria a relaçào dos sofistas com o Não-Ser através de tais simulacros? Não estariam eles fazendo uso do que Platão julga habitar somente o Sensível para um ir em direção à dialética? 17.O Bem está acima de todas as outras Idéias no Mundo Inteligível. Então o que está acima do Bem na Teoria dos Princípios? 18.Se o Bem é a Causa de todas as outras essências há causa-consequência em Platão? Ou podem ser excludentes, onde há Causa nem sempre há consequência? A causalidade seria por participação, isto seria a consequência? Mas pode haver essa relação onde existe uma outra dada por opostos? Dualismos? (não sei se há diferença nisso para Platão: opostos/dualismos/contradição: onde um algo entra em oposição com outro algo e dá origem à contradição. 19.Demiurgo, como ordenador das essências, digamos assim, seria o intermediário entre o Bem o Homem no M.S.? Seria o ordenador da participação? E o que faria essa mediação da Teoria dos Princípios e o Bem? E, por fim, pretende-se relacionar tudo isso com o Não-Ser e seu importante papel no pensamento platônico, conforme está exposto logo a seguir dentro da seguinte questão: [...]

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