segunda-feira, 26 de setembro de 2005

A sigética em Heidegger e a poesia de Trakl

A sigética em Heidegger e a poesia de Trakl “Se és um homem, deixa tua fala lá fora.” Trakl “Nos seus esboços tardios em que trata de uma linguagem capaz de dizer a verdade do ser, o lugar central é ocupado pela sigética, que inclui, entre as “figuras” do dizer, o silêncio, e mesmo o silêncio sobre o silêncio. Aqui não existe mais qualquer possibilidade de tomar o termo “dizer” como sinônimo de “verbalizar”. Ele deve ser entendido a partir do sentido do verbo dicere, em latim, anunciar solenemente, que, por seu turno, remonta à raiz indo-européia deik-, mostrar apontar, indicar. A palavra, antes de ser uma “parábola”, é uma dica; a fala, antes de contar uma “fábula”, é um gesto que desoculta uma “gesta”. Em última análise, até o calar, verbal ou corpóreo passa a valer como um modo de dizer indicial, precisamente daquilo que está além do alcance de qualquer ato fonético ou comportamental.”[1] A referida citação afirma que “o calar, verbal ou corpóreo passa a valer como um modo de dizer indicial, precisamente daquilo que está além do alcance de qualquer ato fonético”, ao eliminarmos o dizer verbal e o dizer corpóreo como possibilidade de manifestação do ser se poderia afirmar que a sigética pertence unicamente ao ente que silencia ou ela está, antes, direcionada a outro ente? Em que lugar se encontra o silêncio? Se no silêncio algo é dito, então, haveria um manifestar de uma ausência do silêncio daquele que cala, implicando no poder-dizer e também no seu não-poder-dizer. Heidegger diz que a “consciência só fala no modo do silêncio”[2] e que as razões da voz da consciência faz com que esta se manifeste como “a falta de qualquer formulação verbal”[3] para a questão da linguagem e do ser. Podemos tomar esse problema de duas formas: uma sigética referida somente ao Dasein [o que seria, de certa forma, um estar “condenado” a um não-poder-dizer do ente para captar o seu próprio ser] e outra referida ao silêncio de um ente a ser captado por outro ente; vamos nos deter nesta última hipótese onde o próprio Heidegger adverte: “uma coisa é relatar algo sobre os entes, outra coisa totalmente diferente é captar o ser dos entes”[4], mas com isto não se pode afirmar que o silêncio de algum ente signifique para ele próprio “a falta de qualquer formulação verbal” em seus pensamentos. O silêncio, neste caso, é sempre para aquele que deseja captar o ser do ente que se encontra no modo sigético.
A linguagem, ainda que não seja expressada, não-verbalizada a outro ente não exclui daquele que silencia um pensar articulável em palavras dentro de sua consciência. Se deslocarmos essa questão veremos que silenciar pode ser indicar pensamentos não-verbalizados, contudo, pensados. Se na primeira forma da sigética, do ente consigo mesmo, existe o indizível como o ente saberia o que é este algo indizível se não pode chegar a verbalizá-lo nem para si próprio? Por outro lado, se isto se refere a outro ente então há algo como negar ao outro a linguagem de si próprio, com isto, negar ao outro uma aproximação possível de desvelamento do ser. Mas se não for possível dizer o indizível nem para si mesmo como se pode pretender dizê-lo ao outro?
A poesia parece ser um bom exemplo para este problema, embora pareça conter um paradoxo: de um lado é um dizer-sigético transformado em linguagem que, no entanto, também quer silenciar e, por isso, a forma poética; de outro, a poesia não pode dispensar a linguagem, a poesia não pode pretender ser silenciosa em termos de um negar-se à representação dos signos, já que dessa forma não existiria. O dizer metafórico tem algo de sigético, pois “oculta” o pensamento “originário” que a desencadeou, pois considerando que o uso de metáforas faz o poeta dizer sem dizer “claramente” como captar o ser ocultado por trás de metáforas? Loparic observa que “Heidegger descobriu que, para realizar o seu projeto de desconstrução radical da linguagem da metafísica, podia recorrer, como subsídio ao seu pensamento, à linguagem de alguns poetas. Ele não se aventurou a transformar a filosofia em poesia, mas se deixou guiar por modos de dizer não-objetificantes poéticos, na tentativa de recuperar o poder indicativo da linguagem e de conseguir transmitir e interpretar a mensagem silenciosa da cisão, exigência central do seu desconstrucionismo.” Hölderlin foi tomado como exemplo disso. Poderíamos pensar de que forma essas questões se ligam: a desconstrução da linguagem da metafísica, o sentido do ser em seu desvelamento, a poesia e, finalmente, o silêncio, e até o silêncio sobre o silêncio.
Se pensarmos na poesia e no quanto seu poder de síntese é ao mesmo tempo “claro” [para o autor] e obscuro [para o leitor] veríamos nesse silêncio “metafórico” uma linguagem poética que diz e que não diz: o escritor fala para si próprio construindo um “mundo” pleno de sentidos para ele, já o leitor tenta desvelar tais sentidos, a metáfora converte-se em uma provocação pois o seu dizer não indica um único dizer, mas múltiplos dizeres. O poeta, torna-se o “protetor” do seu ser no silêncio de sua própria poesia metafórica ao mesmo tempo em que manifesta seu ser através dos múltiplos dizeres passíveis de serem pensados pelo leitor, pois este não deixa de ver possibilidades infinitas de penetrar nesse “silêncio metafórico”. Um dizer que é um não querer dizer óbvio e isento de obscuridades, é um dizer que insinua: na poesia o poeta se encontra no lugar do silêncio buscado, no poeta o silêncio é manifestado em forma de uma síntese sua sobre o mundo e a existência, o leitor é um multiplicador desses significados e sentidos. Na sigética do poeta não há o silêncio do pensamento, há o silêncio sempre para o outro, para o mundo, para o sair de si mesmo para “fora”, mas nunca para ele onde silenciar não significa “pensar” no modo do silêncio.[5]
A sigética que pode soar como um mistério, um segredo, como uma “auto-interjeição” de uma voz que “manda” cessar o discurso mas, que todavia, não toca a “voz” que se move no pensar, soaria como uma espécie de deus da metafísica, mas, aqui, na figura de Trakl soa puramente como poesia recorrente em variações metafóricas. Essa ausência de “voz” considerada como possibilidade de silêncio surge na poesia de Trakl como uma linguagem aliada à uma máscara: “Os consumidos pela terra, quando, com línguas de prata, silenciavam o inferno. Apagaram-se então as candeias no frio aposento e em silêncio as pessoas, no seu sofrimento, olhavam-se com as suas máscaras púrpuras.” Silenciar o inferno, metáfora para o dizer da linguagem que consome os homens, pois é nas máscaras eventuais do silêncio e não nas máscaras da linguagem que alia-se unicamente ao pensar daquele que cala algo de originário em seu ser. Vamos relembrar Trakl e sua enorme recorrência a metáforas, o silêncio aparece como uma forma poética evocando o indizível que a linguagem não consegue ultrapassar. Na sua obra Outono transfigurado encontramos o termo em várias passagens, quase como uma apologia a tudo que cala:
“Que o meu silêncio seja a tua canção (...) Com o coração cheio de silêncio vi. Uma praia morta num mar de silêncio.” In: Outono transfigurado: Cântico da noite. “No silêncio abrem-se os olhos azuis de papoula de um anjo.” In: Outono transfigurado: Canções do Rosário: Amém.
“Minuto de muda destruição. Que te obriga a ficar em silêncio sobre a escada em ruínas na casa de teus pais? Que te obrigou a ficar em silêncio sobre a escada em ruínas na casa de teus pais?”. In: Outono transfigurado: Metamorfose do mal. “... ou inclina-se em silêncio sobre o sono de um guarda que se deixou cair na sua cabana de madeira O silêncio derrete, e esquecido jaz na neve argêntea o frio corpo.” In: Outono transfigurado: Noites de inverno.
[...] e ele caiu em silêncio sobre o seu sangue e a sua imagem, um rosto lunar.” In: Sonho e anoitecer do espírito “... e em silêncio escondi o rosto nas mãos lentas.(...) e eu vi o inferno negro no meu coração; minuto de silêncio reverberante. Silencioso, saiu de um muro caiado um rosto indizível. (...) In: Revelação e Decadência. A poesia de Trakl ao falar sobre o silêncio apresenta um arquétipo poético absorvente, porque misterioso, “formado no satanismo de Baudelaire, na dúvida de Kierkegaard, no niilismo de Nietzsche e no ateísmo de Dostoievski, Trakl tal como eles, nunca coloca a questão religiosa para encontrar qualquer forma de salvação, mas sempre, e apenas, para confirmar uma culpa.”[6] A linguagem seria o próprio satanismo, a linguagem torna-se a própria dúvida, transforma-se no niilismo e no ateísmo de uma existência que não consegue dizer-se, mas que não consegue, também, não dizer-se [não consegue não-pensar-se] e acaba por transfigurar-se em culpa. E, se “o inferno de Trakl emerge como o silêncio absoluto que deus lançou sobre o mundo”[7], podemos falar sobre este silêncio como a própria linguagem que se lança sobre o ente e, contudo, torna-o em sua essência indizível para o outro. “Ficamo-nos sempre pelas palavras, ou melhor, por esta terrível impotência”, escreve Trakl. Poeta personificado numa figura sem voz, “figura simbólica de uma inocência natural e como tal sem linguagem”, fixado na ascese da palavra e na escrita própria daquele que fala consigo mesmo [monólogo], torturado pela lucidez de uma fronteira “inviolável” da linguagem do dizer, no uso da linguagem que se manifesta como negação da própria linguagem, fez de seu não-querer-dizer um dizer de demonstração da impossibilidade da existência em dizer-se e numa quase anterioridade de um silêncio, que acaba apenas por refletir a incapacidade do dizer original, essencial, autêntico do ser. Essa indizível e sempre dita tristeza do mundo na poesia de Trakl é a tristeza do seu mundo e a do mundo dos outros, a de todos os mundos[8], talvez a tristeza do dizível do falar e do escrever como sendo um mundo indizível metaforizado no silêncio da essência intocada do ser: forma única de perder-se e de, no entanto, encontrar-se em outros mundos via linguagem poética.
“Se és um homem, deixa tua fala lá fora” [9]_ este seria, provavelmente o ápice do desconstrucionismo heideggeriano, mas a impossibilidade de um mundo sem linguagem termina, sem escolha, por jogar o ente “ao lugar do mundo que [lhe] foi dado” [10].

[1] Cf. LOPARIC, Zeljko. Ética originária e práxis racionalizada. Departamento de Filosofia. Campinas: Universidade de Campinas. pag. 169-170. [2] Idem. Cf. Ética originária e práxis racionalizada. pag. 169-170. [3] Idem. Cf. citação de Heidegger e comentário de Loparic na obra já mencionada. [4] Idem. Cf. citação de Heidegger e comentário de Loparic na obra já mencionada.

[5] Ainda assim seria necessário dar-se conta que se se está no modo do silêncio, sem pensamento algum, seria preciso abstrair-se por completo de linguagem. E, se não fosse necessário possuir consciência sobre esse silenciar porque seria necessário falar sobre algo que não se pode sequer perceber? De que serviria especular: eu possuo um modo de silêncio na minha consciência que não é dizível, mas, como sei que o possuo? e como sei que não é dizível? se é indizível? Será que a voz interior que se move em reflexões não comporta a recusa do não-silenciar do próprio pensamento? Sandra Fasolo.

[6] Cf. prefácio de João Barrento. TRAKL, Georg. Outono transfigurado: ciclos e poemas em prosa. Assírio e Alvim: Lisboa, 1992. [7] Idem. Cf. prefácio da obra. [8] Idem. Cf. prefácio da obra. [9] Idem. Cf. prefácio da obra. [10] Idem. Cf. prefácio da obra.

2 Comentários:

Blogger além mar peixe voador disse...

muito bom,
abraço

3:29 AM  
Blogger Tristan A. Guimet disse...

" abre a tua boca apenas para dizer algo que será mais belo que o silêncio " provérbio Árabe

7:41 AM  

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