domingo, 25 de setembro de 2005

A conquista da linguagem pela sedução da dialética

Ou_ A conquista da dialética pela sedução da linguagem _ através da crítica de Hartmann feita ao sistema de Hegel_
O conceito de dialética na filosofia de Hegel pode ser compreendido através da seguinte definição dada por Hartmann, porém, vai mais longe e fala no ‘devir’ próprio que reside no dialético, segundo ele, ‘o dialético torna-se imune à contra-argumentação pelo motivo a seguir: 'a introdução da idéia de movimento ou trânsito no nível categorial produziria uma plurificação intragável de sentidos em cada categoria, de modo que seria impossível criticar a Hegel pela simples impossibilidade de determinar o sentido de qualquer um dos termos por ele empregados, por exemplo, na Ciência da Lógica: (...) para o dialético A é justamente B, e se alguém julga tê-lo agarrado em A, ele há muito já escapou para B, e o oponente ficou a ver navios. Um dialético é, assim, como um maníaco com perseguição de idéias; conseguirás mais facilmente segurar o óleo com a mão do que agarrá-lo com palavras.’[1] Esta crítica feita ao sistema hegeliano vai atingir exatamente o que o fundamenta, ou seja, os opostos sendo necessários para que a tríade dialética se desenvolva acabam se convertendo, paradoxalmente, numa ‘fuga’ contínua e sem fim de uma verdade elaborada pelas palavras, pelos conceitos e, portanto, para uma própria explicação plausível do mundo enquanto ontologia. Em outras palavras, aquilo que impulsiona a existência como ela é para Hegel, é também aquilo que não permite a um dialético fundamentar sua afirmação até o fim, pois tal "fim" não importa do contrário não poderia continuar sendo "um maníaco por perseguição de idéias". Importa: pensar uma nova contradição de uma oposição para outra (dada pela tese-antítese) para nunca permanecer por muito tempo com a mesma síntese. Não interessa a ele a ‘estabilidade’ de uma síntese, porque a vê simplesmente como um passo a mais para outra tese, para outra antítese e, assim, seguirá brincando com suas próprias palavras e conceitos num círculo no qual só ele sabe movimentar-se com desenvoltura. Quem tentar discutir com um dialético não conseguirá, de forma alguma, entender qual o caminho que está tomando, como se aquilo que dissesse e indicasse tal ‘argumento’, quase como se fosse seu próprio ser, remetesse para uma cidade ideal e quando julgamos que ele finalmente se fará compreendido, eis que altera o rumo das palavras, conduz o diálogo para outros caminhos e ficamos nós, sem saber o que exatamente ele pensa ou quer que venhamos a pensar. Tomar o caminho antes tido como verdadeiro ou tomar este novo caminho, agora apregoado como verdade e oposto ao outro? Ou ainda não tomar nenhum dos dois, certamente haverá um terceiro e um quarto e assim consegue o dialético nos cansar com tantas argumentações as quais deveriam manter-se firmes e defendidas. Mas ele não quer defender suas idéias, quer no máximo opor-se a elas continuamente, deseja confundir o seu interlocutor, diverte-se com isso, brinca com a verdade, talvez porque saiba de sua inacessibilidade. Não há então um ceticismo refinado em tal comportamento? No fundo não acredita no que diz e parte em busca de outras afirmações e de forma sofista, mas sutil intelectualmente, age como se não percebesse o que faz, como se fosse natural ser assim. O artifício de ‘forjar’ uma expressão de inquietude em sua busca incessante de respostas será capaz de nos comover. Quando o dialético se coloca em posição de partida pode-se ter certeza, fará a volta no alfabeto quantas vezes for necessário para ‘fugir’ de seu interlocutor. Mas vejamos um outro lado da questão: como se sentirá seu interlocutor? Não lhe dará uma certa angústia saber que não consegue ‘pegá-lo com as palavras? No fundo, o dialético despreza o que vai ouvir, já não está ouvindo, sequer lhe importam as respostas ou a contra-argumentação que alguém possa lhe dizer, ele está imerso em seu próprio jogo, em sua própria circularidade, ele seduz-se a si mesmo com seu próprio pensar e vicia-se em tal sedução. Já não importa em absoluto o que o outro dirá, pois este seduzido por tentar pegá-lo pelas palavras apenas funciona como um impulso para que o dialético corra ainda mais atrás de outros argumentos. ‘Não acreditamos que a verdade continue sendo a verdade depois que lhe retiram o véu’[2], estas palavras de Nietzsche servem muito bem ao dialético, o fazem deslizar suavemente e acreditar apenas que só se pode viver da idéia de uma verdade alterada, nada mais, e assim torna-se sedutor de si próprio, sedutor do outro que está sempre tentando compreender a jogada para debatê-las, sedutor de um círculo do qual não consegue fugir pois este círculo é mais atraente do que uma provável ‘estabilidade ou convicção de pensamento’. Aliás ele não quer essa estabilidade, a idéia da falta de movimento provoca nele uma tremenda angústia, ameaça colocar um ‘fim’ no devir que o faz viver e que ele sabe: a cada novo argumento virá outro e mais outro e a transitoriedade do que pensa é mascarada pelo eterno jogo de nunca parar. A simples possibilidade dessa estagnação confere a ele a angústia de um mundo parado, de um mundo sem razão de ser. A vida do dialético é o movimento de seu próprio pensamento e o movimento de seu próprio pensamento é estar sempre em B, quando estamos nós ainda em A. Assim ele nos confunde propositalmente, confunde a si próprio de forma intencional, mas finge para todos que não há tal propósito, somente o de simples e puramente buscar a verdade. Eis que brinca com ela, brinca consigo e com os outros. O dialético odiará aquele que não aceitar as regras de seu jogo, abominará aquele que tentar retirá-lo dessa mania de perseguição de idéias. Mas em tal jogo de perseguição ele sabe, o interlocutor fará de tudo para estar em B, enquanto maquiavelicamente ele já estará passando para C e quanto mais longe ele estiver mais vai se divertir como fato de que o interlocutor não poderá alcançá-lo, de que o outro se sente seduzido em tentar pegá-lo em alguma contradição. Ora, isto é uma ilusão, pois o dialético é a própria contradição dissimulada em busca da verdade. O vazio de argumentação ou contra-argumentação que ele deixa ao seu "oponente" é o que o torna sedutor, todo dialético é por excelência um sedutor, sabe disso e não cai em sua própria armadilha. Enquanto o dialético se ‘vicia’ em estar sempre além em suas idéias o outro, desesperadamente, se sentirá seduzido cada vez mais por um jogo de palavras e de ausência que não compreende. E nesse círculo - com uma boa ou má infinitude, não saberia dizer - através do jogo de contradições, forma-se o início da conquista da linguagem através da sedução da dialética. Ou seria o contrário: forma-se a conquista da dialética através da sedução da linguagem? Em todos os casos, haverá sempre alguém para dar ‘impulso’ ao seu próprio vicio de idéias e sedução, haverá sempre alguém que se encantará com tal jogo e ele poderá seguir nesse círculo fechado sobre si mesmo, quase narcísico, onde o importante não são propriamente seus conceitos e sim sua atitude em cercar-se de um caminho bifurcado em outros tantos. ‘É só o pensar que faz a alma espírito e a filosofia é somente uma consciência sobre esse conteúdo, sobre o espírito e sua verdade (...)’[3] mas a forma como a consciência se faz espírito não está distanciada de uma suposta subjetividade (mesmo com uma boa dose de determinismo) e por isso, o dialéitco não almeja ‘saber’ exatamente os caminhos deste ‘bosque’, pois todo seu desejo é continuar passeando por ele a espera do encontro com a Alice no País das Maravilhas, cheia de inocência. Ele não é inocente, antes de tudo, faz-se de, mas encantará a ele tal encontro, e até poderemos ouvir, um breve hino após ter estado a sós com seus pensamentos, melodia que provavelmente usará um dia, quando as circunstâncias lhe exigirem de uma forma não menos suave. Assim, temos descrito o espírito de sedução do dialético, somente daquele que conhece a arte de persuadir, de confundir, de embriagar aquele que o ouve, após ter feito a conquista de sua própria linguagem. Como diz Baudrillard, ‘a ausência seduz a presença (...) Nunca estar onde pensam, nunca estar onde o desejem (...) ela é (a pessoa que seduz) uma ‘estética do desaparecimento’[4], ou em outras palavras: idéias que o próprio dialético logo abandona pois sua ‘estética do desaparecimento' se dá não através das aparências, mas da prórpia idéia em si mesma, mutante. Sem dúvida, que ‘dialéticos e dialéticas’, tornam nossas vidas menos monótonas e tediosas. Avessos às mesmices de seu próprio pensar não se cansam de buscar o que ali não está, de querer estar onde não estão, de querer pensar o que ainda não pensaram, de querer proclamar ao mundo aquilo que ainda não disseram, mas que será dito em breve mesmo que por poucos intantes. Depois tudo será esquecido como se palavras pronunciadas com tanta convicção e paixão fossem somente um objeto de desculpa para testar não-dialéticos. Por isso, cuidemo-nos com eles, testar é uma arma que também sabem usar muito bem considerando que tudo servirá a eles de ‘munição’ com o intuito de conduzir o diálogo como quiserem. Enfim, poderia pensar através das palavras de Cioran que ‘o homem só se desembaraçará de seus ancestrais quando houver liquidado nele todos os vestígios do Incondicionado, quando sua vida e a dos outros lhe parecerem um jogo de marionetes cujos fios puxará para rir, em uma diversão de fim dos tempos. Será então o ser puro. A consciência terá cumprido seu papel...’[5] E nós, diante do olhar fixo do dialético, perdidos em tantas manipulações de retórica ficaremos, talvez, enrolados em A para sempre, enquanto ele passeia displicentemente pelo seu ‘bosque encantado’ cumprindo seu papel. Anna & a definição do "espírito absoluto" dos dialéticos pelo viés filosófico de Hartmann e a pergunta crucial: devo me transformar numa dialética hegeliana? Ou apenas perceber quando estiver dialogando com um original-hegeliano que não leu a citação de Hartmann: "o dialético é, por assim dizer, como o óleo entre as mãos." [1] APUD. LUFT, Eduardo. Método e sistema: investigaçào crítica dos fundamentos da filosofia hegeliana. PUC, p. 197 [2] APUD. BAUDRILLARD, Jean. Da sedução. 2. ed. Campinas: Papirus, 1992. p. 68 [3] HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Enciclopédia das Ciências Lógicas. São Paulo: Loyola, 1995. p. 26. [4] BAUDRILLARD, Jean. Da sedução. 2. ed. Campinas: Papirus, 1992. p. 27 [5] CIORAN. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. p. 93

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