quarta-feira, 3 de agosto de 2005

A meia-face da literatura e da filosofia

Misturo Filosofia com Literatura. Isto me parece contraditório. A Filosofia não é a busca da verdade? A Literatura não é ficção? E sendo ficção posso dizer que a literatura inventa, em outras palavras distorce e falseia a verdade. Como se ambas pudessem mostrar a beleza do mundo, porém de formas contraditórias. Não sei em qual delas encontro mais beleza e se posso a vir conciliar uma com a outra. Uma verdade oculta apesar de transitória, um pensamento que transcenda e que vá mais fundo do que deixar-se viver, importa? Penso que expressar os próprios pensamentos — por mais estranhos que estes possam parecer — é um algo a ser admirado constantemente, afinal não será a Filosofia, a corrente de pensamentos, que sempre moverá o mundo? Para mim o admirar-se foi descobrir que existe uma linguagem metafísica, em meio a tanto pragmatismo espalhado pela vida dos homens, capaz de substituir a insatisfação existencial. É possível, ainda, sentir um assombro diante da vida que fuja à realidade plausível e banal que em vez de acrescentar, acaba por nos tirar até mesmo a capacidade de imaginação e criação. A metafísica é uma descoberta que nunca mais se esquece e da qual não conseguimos mais nos afastar. Talvez o meu conceito esteja confuso, distorcido, misturado com idéias que não estão a ela ligadas, mas pode haver algo que não possua um traço metafísico? Ou pode haver um outro algo que seja somente isso: metafísica? É certo que ao longo da história da Filosofia vários conceitos surgiram e foram se transformando, criar um conceito próprio seria possível? Acredito que tudo que existe diante e longe de nossa percepção, qualquer que seja, possui entrelinhas a serem desvendadas através de uma busca que não tem fim, que não pode ter fim e é exatamente esta busca que virá a substituir o tédio do pragmático, o tédio do simples viver. O que quero dizer é que quando nos limitamos a praticidade do dia-a-dia, da qual não conseguimos fugir, também é certo, caímos na banalidade da existência. Mas se ao contrário procurarmos ver nessas entrelinhas as perguntas que a humanidade sempre fez e continuará fazendo: ‘quem somos, para onde vamos, quanto tempo tenho’, estaremos indo em direção a muitas outras coisas com as quais poderemos desvelar tudo de uma forma diferente, mesmo que seja somente para nosso pensamento, nosso eu mais profundo. Saber que o mundo pode existir dessa maneira importa, faz com que eu continue a escrever e me fornece a certeza de que ainda é possível entusiasmar-se com algo (se não me engano em grego entusiasmar-se significa estar em plenitude com Deus, estar pleno de) de que ainda é possível aproximar-se cada vez mais da linguagem e perceber que o espaço de transição entre o pensar e o ato de transformar estes pensamentos em palavras, em linguagem, talvez seja enfim a metafísica agindo dentro de nós. Quem sabe as entrelinhas de nosso próprio ser?
Um de meus primeiros textos sobre filosofia_ que saudade dessa espontaneidade 1998

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